11 de junho de 2017

Bloomsday e o desafio de 'Ulysses'

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Bloomsday e o desafio de 'Ulysses'


Quem acompanha as listas dos 100 melhores do século (filmes, livros, músicas), já se deparou com o desafio de “Ulysses”. A obra de James Joyce, por ter sido considerada pela crítica como o romance do século XX assusta e atrai. Na visão dos críticos mais conservadores, Joyce teria abusado de alguns experimentalismos linguísticos e, por esse e por outros motivos, teria seu lugar na história da literatura mais como tema de simpósios de especialistas do que propriamente como um autor a ser desfrutado pelo grande público.


Por estas e outras razões a obra é considerada “o livro mais comentado e menos lido da história da literatura”. Apesar desta designação paradoxal e do fantasma de complexidade que se formou sobre a obra vários aspectos que envolvem a história do romance o tornaram um livro, em certo sentido, extremamente popular.

Ulysses é citado e celebrado desde, pelo menos, os anos 20. Não deve ser o experimentalismo o aspecto central que afasta boa parte dos leitores desta obra polêmica, mesmo porque o maior exemplo de experimentalismo de Joyce não é o Ulysses. O exemplo máximo de ousadia criativa do autor foi o “Finnegans Wake”. Caetano Galindo, responsável pela nova tradução de Ulysses para o português (Cia das Letras – Penguin - 2016), propõe apresentar o Ulysses, antes, como o que ele realmente é: um romance, e não um “quebra-cabeça exemplar”.









O estudioso da obra, Declan Kibert, nos dá algumas pistas para uma primeira incursão no texto. A primeira seria a aversão de Joyce pelo tema das batalhas. A inspiração homérica pode sugerir, a princípio, que Joyce poderia ter sido um helenista que defendesse o ideal ético-estético; espada, sangue e heróis. Aquele helenismo saudosista, supostamente aristocrata, que já atraiu militares, artistas e acadêmicos. Vale lembrar que esta nostalgia helenista nos legou figuras tão antagônicas como Nietzsche e Hitler.

Segundo Kibert, esse distanciamento de Joyce com relação a temas bélicos teria sido o efeito da guerra sobre sua geração. O escritor tinha medo “dessas palavras grandes que nos deixam tão infelizes”. Na concepção de Joyce, que se mostrava contrária à própria tradição literária Irlandesa e, por que não, contrária a toda tradição literária europeia, era que o épico deveria conviver necessariamente com a futilidade da guerra. Há, aqui, uma contradição que Kibert explora como uma chave para a interpretação das opções de Joyce pelo cotidiano minucioso. O detalhismo é uma opção estética de franca oposição ao solene e grandioso.

Para Joyce, o preço da postura e do discurso heroicos, característicos do gênero épico é, em todas as civilizações, a violência. O corpo e o cotidiano, estas duas realidades imediatas, são os que sofrem com os ideais pronunciados com pompa nos palanques, muitas vezes por quem não luta nos campos de batalha. 

Segundo Kibert isto não aparece de maneira panfletária no texto e sim nas escolhas estéticas e estruturais. Joyce teria escrito um épico do corpo, um relato minucioso de um dia como uma lembrança página a página de que a normalidade do Ulysses moderno seria uma repreensão contra o mito do heroísmo militar antigo.

Na verdade, o que Joyce pensava é que a busca pelo heroísmo era uma grande vulgaridade (o autor afirma em uma carta a seu irmão), ideia estranha até hoje se pensarmos no sucesso não exatamente surpreendente dos heróis modernos. Além deste distanciamento o escritor não substituía a ilusória estrutura do heroísmo pela força da paixão individual, que poderia ser outra saída para a exaltação de um personagem.

Nessa perspectiva, o minucioso é representativo do que é real e efetivamente importante para vida cotidiana (afinal só existe a vida cotidiana). Com Ulysses, Joyce estaria marcando o terreno da nova literatura contra uma concepção arcaica, sensacionalista e heroica do próprio povo irlandês. Além disso, Joyce tinha uma convicção que até hoje é uma característica muito pouco compreendida em toda a literatura pelos nacionalistas, a ideia de que o maior dever de um escritor é o de insultar, mais do que bajular, a “vaidade nacional”.

Afinal, o insulto proporciona, na maioria das vezes alguma luz sobre nossos autoenganos. Seu herói não seria um homem de inteligência em oposição ao homem de armas. Nem mesmo um libertador espiritual. Nem Jesus nem Fausto, nem mesmo um Hamlet. O primeiro seria incompleto por não ter cumprido a coisa mais difícil na vida de um homem, que “segundo Joyce”, seria conviver com uma mulher. Jesus era solteiro, não teria vivido esta experiência formadora.

Nem Fausto, negociando com o diabo, teria sido o ideal do herói de Joyce. Hamlet é, e sempre será, o filho, não serve. Odisseu é pai de Telêmaco, marido de Penélope e viveu inúmeras aventuras pelo mundo. Odisseu é o homem completo. A composição deste herói, alguém pode dizer, não é tão complexa assim, Ulysses é um aventureiro sagaz, nada mais do que isso.


Eli Vagner F. Rodrigues é professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.







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