25 de junho de 2017

Assertividade e violência: diferenças e aspectos políticos

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Assertividade e violência: diferenças e aspectos políticos


Frequentemente se confunde o comportamento assertivo com o comportamento violento. 

Assertividade e violência, no entanto, dizem respeito à campos diferentes, sendo tal entendimento necessário para se evitar equívocos interpretativos. A reflexão sobre esses termos pode se dar através de várias áreas do conhecimento. 

Uma delas é a Ciência Política, que contribui com pesquisas sobre os aspectos políticos da realidade, aqueles que dizem respeito à tomada de decisões, espaços coletivos e produção de regras sobre e para o funcionamento da sociedade.

Assertividade é um elemento de afirmação e proposição ao passo que violência é uma ação de desrespeito e imposição de vontades, com subsequente anulação do outro, podendo inclusive ocorrer através de atos não afirmativos. 

A pessoa que agride nem sempre “bate de frente” com a realidade ou com as pessoas que vitimiza. Um exemplo é violência psicológica, que não se define pela invasão corporal ou verbal, ocorrendo muitas vezes pela ausência, inclusive. 









O abandono afetivo é uma forma de violência psicológica, sendo definido pela falta de cuidado, contato, apoio e companheirismo em uma relação afetiva. 

Outros exemplos são: a constante desvalorização do outro, seja através de palavras, olhares ou ausência de reconhecimento das conquistas e qualidades de uma pessoa, ao passo que as características negativas são sempre ressaltadas; controle do outro, através de comportamento que manifesta desconforto com a liberdade de ir e vir do/a parceiro/a; entre outros exemplos. 

Em geral, a violência psicológica se dá através da combinação de elementos assertivos e não-assertivos; presença e ausência de ações; e ocorre em espaços prolongados de tempo. Essas características frequentemente dificultam a identificação da violência, pois, esta é diluída em várias pequenas ações e mascarada por elementos não-explícitos.

A assertividade é uma característica que se dá de forma explícita. A pessoa assertiva ressalta sua opinião para o coletivo, defende seu ponto de vista e propõe ideias, soluções, caminhos. 

Obviamente que muitos atos de violência ocorrem a partir de comportamento assertivo, porém, nem toda ação assertiva é violenta, assim como nem toda ação violenta é assertiva. A pessoa assertiva empenha sua palavra, ou seja, a constrói de forma iniciativa e defende seu ponto de vista, dialogando com outros argumentos, a partir de sua consistência e coerência.

Há várias definições de violência, auxiliando no entendimento sobre o mundo que nos cerca. O Dicionário de Política, escrito por três homens (Bobbio, Matteuci e Pasquino, 1983) versa sobre os aspectos físicos da violência, ressaltando os contextos estatais e de controle dos indivíduos onde esta ocorre. 

Já as teorias feministas, escritas por mulheres, vem enriquecendo os conceitos sobre violência, identificando-a em vários níveis: físico, sexual, psicológico, simbólico, moral, patrimonial, verbal. 

A violência é um elemento complexo das relações sociais e deve ser pesquisada e debatida publicamente com mais frequência, a partir da profundidade com que se dá na vida social. 

Safioti (2004) e Hirata (2009) versam sobre a violência que homens cometem contra mulheres a partir de vários parâmetros: o objetivo e o subjetivo; os níveis públicos e privados da realidade; e as dimensões sociais, psicológicas e jurídicas existentes para interpretar e combater a violência. A Lei Maria da Penha (2006) e a Convenção Belém do Pará (1994) também ampliam o entendimento sobre violência no nível jurídico, fornecendo instrumentos para eliminar a violência contra mulheres, praticada em grande parte por homens.

É importante ressaltar que frequentemente a mulher assertiva é interpretada a partir de um valor negativo, ao passo que com os homens tal situação é menos frequente. 

O aspecto  de gênero influencia a interpretação sobre a realidade, em função dos sujeitos da ação serem homens ou mulheres e logo, serem considerados masculinos ou femininos. Nas sociedades patriarcais, há uma associação direta e necessária entre homens e masculinidade e mulheres e feminilidade, sendo que o masculino seria a ação e o feminino, a sujeição. 

Nesse universo interpretativo a assertividade diz respeito ao masculino e a passividade, ao feminino. 

Nesse sentido, mulheres assertivas estariam transgredindo a ordem social estabelecida. Em conjunto com esta interpretação, o estímulo social à misoginia e a reprovação social da existência de mulheres autônomas, propositivas e confiantes, assim como a suspeita da capacidade de mulheres em proporem soluções coletivas, geram uma intensa raiva coletiva direcionada a mulheres assertivas, assim como desaprovação social do comportamento das mesmas. 

Mulheres assertivas são colocadas no lugar de transgressoras da ordem, ou seja, violadoras. É uma inversão e tanto do significado e valor das ações, tendo raízes fortes e profundas nas culturas patriarcais. Mulheres assertivas são mulheres assertivas. Ponto. Violência é outro assunto.

A assertividade colabora para o andamento dos processos políticos, seja na macro ou na micro política (política representativa e instituições; e tomada de decisões no cotidiano, respectivamente), enquanto que a violência obstrui a política. Enquanto que política é diálogo, violência é supressão  e impedimento de diálogo. 

A assertividade, por sua vez, colabora para o diálogo, pois explicita opiniões e posicionamentos, facilitando o entendimento sobre argumentos, assim como o andamento de processos de decisão. 

Para que exista política há que existir assertividade, tolerância em relação à diversidade de realidades e intolerância à violência. Por sua vez, para se atingir a extinção da violência, há que existir assertividade. 

A supressão da violência exige posturas incisivas e afirmativas, tanto por parte dos cidadãos e cidadãs no cotidiano, como por parte do âmbito político representativo, na forma de leis e regras que visem a democracia, a paz e o bem estar para todas e todos e não somente para algumas parcelas da sociedade.

Daniela Alvares Beskow. Escritora e bailarina. Bacharel e licenciada em Ciências Políticas (UNICAMP) e bacharel em Comunicação das Artes do Corpo (PUC-SP). Mestranda em Artes Cênicas (UNESP-SP)..







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