22 de maio de 2017

Londres no século XIX

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Londres no século XIX

José Roberto Fernandes Castilho[1]

No dizer de Silvio Romero, ele é quase um estrangeiro para nós. Filho de rico comerciante português, o carioca Luís Guimarães Júnior (1845-1898) é considerado o precursor do parnasianismo na literatura brasileira com seu livro Sonetos e rimas, de 1880. Custeado pelo autor, o livro foi publicado em Roma, porque, nesta época, ele morava na cidade uma vez que era diplomata e chegou a ministro plenipotenciário. Formou-se em Direito, no Recife, em 1869 e em 1872, com 27 anos apenas, começou sua peregrinação diplomática, a partir exatamente de Londres passando depois pelo Chile, por Roma (onde serviu sob as ordens de Gonçalves de Magalhães, poeta introdutor do romantismo no Brasil), por Veneza. No final da vida, já aposentado, passou a residir em Lisboa, ficando sempre distante do Brasil.








Em suas memórias, o jurista Rodrigo Octávio (1866-1944) – membro fundador da Academia Brasileira de Letras – ABL, como, aliás, o próprio poeta – relata um grande banquete oferecido a Luís Guimarães no Hotel do Globo (rua Primeiro de Março, já demolido), em 1886, quando visitava o Rio. O banquete reuniu a “flor das nossas letras”; Machado de Assis presidiu a mesa principal e Joaquim Nabuco discursou e declamou um poema próprio. Rodrigo Octávio observa que, nesta época, o poeta “servia como Secretário de nossa Legação” em Lisboa e que seu livro tivera um “retumbante sucesso” (Minha memória dos outros, vol. 2, 1936). No entanto, hoje, autor e livro se acham quase que completamente esquecidos e, depois de longuíssimo hiato, a ABL reeditou os versos em publicação de 2010, tornada disponível no sítio da Academia.

Integrando aquele livro, o soneto de Londres está entre as produções poéticas mais importantes e significativas de Guimarães Júnior - tanto por aspectos formais (as aliterações ou a rima interna do 4º verso, por exemplo, acompanhada do paradoxo consoante do “verme enorme”) quanto no próprio conteúdo que resulta da visão de observador participante, para quem “o mundo visível existe”. Este é o ponto a destacar: o “calor emocional” da obra. Conhecida pelo poeta desde 1873, Londres, que no final do século XVIII tinha cerca um milhão de habitantes, em 1851 chega a 2,5 milhões de habitantes, superando a população de qualquer outra cidade do mundo antigo ou moderno. Caput mundi, a Roma imperial, com população de cerca de um milhão de habitantes no auge do seu esplendor, foi a maior cidade da Antiguidade.  

Em Londres, a desordem e a miséria tornam-se protagonistas da cena urbana: é oespetáculo da pobreza. As desastrosas conseqüências sociais do crescimento acelerado provocado da Revolução Industrial geraram aquilo que o poeta escocês James Thomson chamou, num título famoso, “cidade da noite apavorante” (“city of dreadful night”). O longo poema sombrio – ou “gótico” - de Thomson, publicado num jornal em 1874, trata do horror da cidade vitoriana a partir de Londres, com sua massa de “andarilhos espectrais da noite ímpia”, “escuros, escuros, longe do brilho e da alegria” (“Oh dark, dark, dark, withdrawn from joy and light!”).

Há coincidências interessantes a destacar: os poemas de Thomson e de Guimarães Júnior foram publicados em livro no mesmo ano (1880), e cuidam do mesmo tema - se bem que o segundo com menor intensidade que o primeiro -, destacando o crescimento da miséria e dos miseráveis na cidade opulenta, onde a atividade econômica é febril. Daí a imagem comum da cidade noturna, que, na obra do brasileiro, em meio à “dúbia claridade” dos lampiões dorme sob uma “névoa estranha”, ouvindo o Tamisa, rio escuro, fantasmagórico, a bater contra o “cais solitário”. Emulando as pessoas, o rio “geme convulso e espuma” voltando depois a gemer. O notável soneto, em versos decassílabos (heróicos e sáficos, combinados), é todo construído no jogo das oposições entre “ouro” e “pão”, entre “fome” e “indústria”, entre “gigante” e “verme”, até chegar no fecho do verso final que exclama, indignado: “Oh milionária Londres indigente!”. Destaque-se a fusão de “melopeia” (a música) e “logopeia” (a ideia) do verso – como de resto de toda a composição -, nos termos propostos por Ezra Pound.

É a mesma “cidade da noite apavorante” vista por um poeta brasileiro. E há nele a revelação artística das próprias contradições do capitalismo: a indústria poderosa, “ingente”, produz a Londres indigente, pobre, miserável, repleta de “vultos” que são os mesmos “spectral wanderers” de Thomson. A fome nela rasteja. Estes “vultos cautelosos” querem pão ou, no mistério da noite, procuram “os gozos”, numa referência à prostituição - inclusive infantil - que era um modo comum de sobrevivência da mulher e da sua família, como se lê em Charles Dickens. A imagem eloqüente (porque igualmente paradoxal) do “gigante suarento”, logo no verso inicial, explicita aquela contradição de modo ainda mais concentrado: uma potência que trabalha. A Inglaterra era então tida como a “oficina do mundo” e é dessa realidade – apreendida por Guimarães Júnior - que trata o poema, com sua musicalidade ondulante.

Cabe destacar ainda que, bem ao contrário dos outros parnasianos posteriores – sobretudo o trio famoso composto por Olavo Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia -, o vocabulário do poeta é simples e o seu sentido direto e concreto (não há meras sugestões ou apenas criação de atmosferas, como faziam os românticos), reforçando o impacto do soneto cuja força expressiva permanece íntegra até hoje. Isto se ele fosse lembrado: o poema de Thomson – cuja força foi logo vista - é fartamente citado (v., por todos, Peter Hall) e muitas vezes reproduzido juntamente com as gravuras célebres feitas por Gustave Doré em 1872, enquanto o soneto de Guimarães Júnior – da mesma época, com o mesmo tema e elevada qualidade - não só não é citado como, pior, é quase desconhecido entre nós e precisaria ser resgatado.


“Londres”[2]

Como um gigante suarento, dorme
Nos pardos mantos duma névoa estranha,
A Cidade opulenta em cuja entranha
Rasteja a fome como um verme enorme.

Dos lampiões à dúbia claridade,
Passam, repassam vultos cautelosos:
Este procura no mistério os gozos,
Procura aquele um pão, na realidade.

Contra o cais solitário o rio escuro
Geme convulso e espuma – e novamente
Volta a gemer, de encontro ao velho muro;

Retine o ouro: - vela a Indústria ingente,
Cresce a miséria e aumenta o vício impuro...
Oh milionária Londres indigente!














[1] Professor de Direito Urbanístico da FCT/Unesp.
[2] Extraído, como os demais, de Sonetos e rimas, 4ª ed., Clássica: Lisboa, 1925. Prefácio de Fialho D’Almeida. Foi também consultada a 2ª ed., de 1886, igualmente publicada em Lisboa. O texto foi confrontado com a edição imperfeita da ABL, de 2010, que está disponível




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