18 de abril de 2017

O momento de fazer o que não fizemos

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 O momento de fazer o que não fizemos


'Histórias de sucesso como essas não se repetirão em nosso país: os recentes cortes no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações terão como consequência o desmonte dessas atividades no país'.  

A frase contundente do artigo “Ciência brasileira: últimos suspiros?” publicado pelos presidentes da SBPC e da ABC, Helena Nader e Luiz Davidovich, no jornal Folha de S. Paulo, traz a constatação sombria de uma provável realidade que deveremos enfrentar nos próximos anos. 

A forma como essa realidade vai se concretizar nas carreiras e vidas de pesquisadores e docentes ainda mostra, neste momento, muitas dúvidas e indagações que não deixam espaço para qualquer otimismo.

Quantos e quais programas de pesquisas serão interrompidos? Quantas instituições conseguirão manter sua condição de excelência? Quantas bolsas de pós-graduação, pós-doc, PhD, mestrado e iniciação científica deixarão de ser concedidas? Quanto conhecimento deixará de ser produzido? Qual será o saldo da redução no investimento das pesquisas estruturadas e consolidadas nos últimos anos?








Este pode ser o momento para nos dedicarmos com atenção a algumas ações que não conseguimos fazer durante os últimos anos. Devemos levar em conta alguns fatores. 


Entre eles o curto tempo transcorrido desde a criação do atual modelo de CT&I do País, que tem funcionado como restrição para um maior engajamento da comunidade científica em uma tarefa primordial.

Isto é, criar vínculos com outras áreas da sociedade para destacar a importância de ciência e tecnologia para essa sociedade, em especial mostrar ao grande público o quanto a ciência é. Para alguns observadores da crise atual, a tranquilidade com que o governo adota medidas que levam ao desmonte da CT&I é um sinal sugestivo de sua segurança, sabendo que não encontrará resistências ao fazê-lo. E essa falta de resistência, sem dúvida, vem do desconhecimento da sociedade sobre o que a ciência pode fazer pelas pessoas e pelo país. E como ela pode ser um fator determinante de geração de valor, de inovação, de inclusão social e melhoria da qualidade de vida.

Um ponto básico desse processo parece ser a falta de uma visão abrangente do que foi construído no avanço do conhecimento, nas investigações científicas, nas tecnologias geradas nos últimos anos, e o que deixou de ser feito para estarmos ao lado de países que hoje ocupam posição de destaque, e que há 30 anos tinham situação semelhante à nossa. Ou, de outra forma, talvez mesmo, nós cientistas e professores não tenhamos muito claro um panorama geral dos avanços obtidos, das muitas dificuldades e limitações encontradas e do potencial a ser explorado nos próximos anos num país de grande dimensão territorial e riqueza natural.


O que torna mais difícil a formação de uma consciência e a produção de um discurso de valorização da atividade científica de modo a atingir os vários segmentos da sociedade. Como levar essa informação a outros setores sociais se ela não está clara para nós mesmos?

Agora, mais do que nunca, esse trabalho de conscientização e comunicação tornou-se uma prioridade que, literalmente, pode estar relacionada à sobrevivência de programas e projetos que diferenciaram o país e na consolidação de novos que manterão o sistema de CT&I em funcionamento e robusto. 

Uma tarefa nada fácil quando se considera o dia a dia da vida acadêmica de muitos profissionais, de quem se exige muito mais que docência, pesquisa e extensão. As exigências atuais vão além de publicações de impacto, exige-se gestão, transferência de conhecimento, patentes, índice h além da imersão permanente no mundo dos relatórios e na elaboração de grandes projetos, cada dia mais competitivos.

artigo dos professores Helena Nader e Luiz Davidovich está sinalizando com letras vermelhas a gravidade do momento que vivemos, também na área de CT&I. O texto toma como exemplo as grandes referências em tecnologia brasileira construídas no século passado, Embrapa, Petrobras e Embraer.  

Hoje, centenas de pequenos e médios projetos de pesquisa aplicada, assim como empresas de base tecnológica, estão em formação e dependem para seu sucesso de recursos públicos para se tornarem o sucesso deste século.
É pouco provável que a extinção dessas iniciativas chegue ao conhecimento da sociedade ou que esta venha contabilizar a perda desse esforço, e do que deixou de ganhar, simplesmente pelo desconhecimento de sua importância.

No próximo dia 22, teremos a Marcha pela Ciência, evento de âmbito mundial.

Esperamos que toda comunidade, cientistas, educadores, estudantes e profissionais ligados à área de CT&I saiam às ruas para disseminar a ideia de que a ciência é fundamental para a construção de políticas e regulamentos de interesse público.

Este pode ser um primeiro passo importante para a criação de uma nova mentalidade da sociedade brasileira sobre o que representa a ciência e a atividade de pesquisa em todas as áreas do conhecimento para o fortalecimento de um país.

Vanderlan da S. Bolzani, professora titular do Instituto de Química da Unesp de Araraquara e vice-presidente da Fundunesp e da SBPC.
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