24 de abril de 2017

Mudanças climáticas, pós-verdade e a Marcha pela Ciência

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Mudanças climáticas, pós-verdade e a Marcha pela Ciência

Helena Margarido Moreira[1]

Em 2016, o Oxford Dictionaries (Departamento da Universidade de Oxford) elegeu a “pós-verdade” como a palavra do ano da língua inglesa. 

A palavra se refere às “circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”[2]. Em 22 de abril de 2017, milhares de pessoas foram às ruas em mais de 60 países para marchar pela Ciência e protestar contra a prevalência de “fatos alternativos” sobre as evidências científicas na formulação de políticas públicas. Diversos cientistas de prestígio internacional participaram da Marcha, dentre estes Christiana Figueres, secretária-executiva da Convenção do Clima das Nações Unidas (UNFCCC, da sigla em inglês) que liderou o processo de negociação e adoção do Acordo de Paris, para limitar o aquecimento global e combater as mudanças climáticas.

A marcha pela Ciência foi convocada em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, como um evento não-partidário, mas não apolítico, para reafirmar o papel vital da Ciência nas democracias e contra o crescente descaso com os fatos científicos, refletido nos cortes de orçamento para ciência e pesquisa em diversos países, inclusive os EUA e o Brasil.








Nos EUA, a marcha acabou sendo mais uma manifestação de uma série de protestos contra as medidas adotadas nestes primeiros cem dias do Governo Trump. Dentre estas, cortes orçamentários para agências científicas governamentais como a EPA (Environmental Protection Agency), atualmente presidida por Scott Pruitt, um conhecido opositor do consenso científico a respeito das mudanças climáticas.

Donald Trump já classificou o aquecimento global como “farsa” e ameaça retirar o país do recém adotado Acordo de Paris, o mais inclusivo e abrangente documento internacional para regular as ações dos Estados em torno do tema das mudanças climáticas, resultado da Conferência do Clima de Paris, que aconteceu ao final do ano de 2015. 

Ainda, o atual presidente norte-americano reverteu decisões tomadas pelo seu antecessor, Barack Obama, e seu Plano de Energia Limpa, que limitava a emissão de gases por usinas a carvão. Ignorando as evidências científicas a respeito das mudanças climáticas, Trump vem rapidamente desfazendo avanços da era Obama na questão energética e ambiental, impulsionando a indústria do carvão (na contramão da tendência mundial em direção a economias de baixo carbono), desqualificando o conhecimento científico em torno do tema, e retrocedendo o posicionamento internacional do país nas negociações climáticas.

Se nos EUA a marcha adotou, não oficialmente, um tom de protesto ao Governo Trump impulsionado pelas declarações presidenciais contra as mudanças climáticas e cortes orçamentários para pesquisa e ciência, no Brasil o alvo foram os cortes de mais de 40% no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC), redução de bolsas acadêmicas e de investimentos em pesquisas e laboratórios, e o fim do Programa Ciência sem Fronteiras, uma das vitrines do governo Dilma Rousseff, em execução pelo governo Temer. No entanto, tais medidas não foram capazes de levar mais do que algumas centenas de cientistas e defensores da causa às ruas em mais de 20 cidades do país. Em cidades como o Rio de Janeiro, o protesto levou às ruas estudantes e professores de universidades públicas, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e institutos de pesquisas, para mostrar que a falta de investimentos compromete o desenvolvimento da ciência e da própria carreira no país[3], que deverá ser ainda mais desestimulada no médio prazo pelas reformas trabalhista e previdenciária que estão sendo impostas pelo governo sem debate prévio com os diversos setores da sociedade.

Em comum, o descaso com a pesquisa e a ciência levou cientistas e apoiadores a marcharem pela Ciência neste 22 de abril de 2017. Os organizadores do movimento agora esperam que os participantes expliquem o porquê de sua adesão, dando seguimento a uma série de ações que visam mostrar aos líderes políticos e à sociedade o valor da ciência, a necessidade de tomar decisões a partir das melhores evidências cientificas, aproximar o cientista da vida pública e política, melhorar a comunicação e a divulgação científica[4]. 

Movimentos necessários em um mundo em que as crenças pessoais têm mais valor do que os fatos objetivos, em que dados são manipulados e mentiras são divulgadas como “fatos alternativos”, e as evidências científicas coletadas com base no melhor conhecimento científico disponíveis são simplesmente descartadas. Em pleno século XXI a pós-verdade vai ser afirmando não só como uma palavra que define um ano, mas como o “espírito do tempo”, em que, como afirma Tim Harford em artigo publicado recentemente na Folha de S. Paulo[5], os fatos precisam de defensores. Quando os fatos não interessam às pessoas e aos tomadores de decisão, é papel também da Ciência mostrar novamente que eles importam. Sinal dos tempos.



[1] Doutora em Geografia Humana pela USP. Professora de Relações Internacionais da Universidade Anhembi Morumbi. Pesquisadora associada ao IPPRI-UNESP.
[2] A definição do termo encontra-se no site do Oxford Dictionaries, disponível em: https://en.oxforddictionaries.com/word-of-the-year/word-of-the-year-2016. Acesso em: 22/04/2017.
[3] Ver reportagem completa do Estadão em: http://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,pesquisadores-fazem-marcha-pela-ciencia-no-rio,70001747870. Acesso em: 23/04/2017.
[4] Ler o manifesto e ações no site do March for Science, disponível em: https://satellites.marchforscience.com/. Acesso em: 23/04/2017.


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