23 de abril de 2017

México-EUA para além do muro

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México-EUA para além do muro


A proposta de Donald Trump de completar a construção do muro na fronteira com o México caminha no sentido oposto ao atual nível de interdependência entre os dois países. 

Há, contudo, muita incerteza. Discute-se acerca da viabilidade da construção, tanto devido à dificuldade geográfica local, como pela necessária aprovação do Congresso estadunidense do orçamento para a obra. Ademais, a fronteira é o principal ambiente em que se expressa o atual nível de associação econômica e social entre México e EUA, apresentando dinâmica própria.

A fronteira está viva. Ela é o palco de trocas comerciais, passagem de trabalhadores e imigrantes de toda a América Latina e de vários tipos de produtos e serviços. 








Seja qual for a orientação ideológica do presidente do México ou dos Estados Unidos, fechá-la ou restringi-la é um processo de grande complexidade, que pode gerar efeitos negativos imediatos para os dois países. 

De acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos, o comércio diário na fronteira chega a 1,4 bilhão de dólares. No caso do estado do Texas e da California, o México é o principal destino dos produtos exportados, representando 39% e 15,4%, respectivamente.

Muito além das trocas comerciais, a fronteira também reflete a conexão social entre México-Estados Unidos. 

Desde 2007, observa-se uma significativa diminuição de mexicanos que migram para o vizinho, sendo o México hoje, em termos genéricos, um país de passagem para imigrantes provenientes do Triângulo Norte – Honduras, El Salvador e Guatemala. Nesse sentido, alguns dados são interessantes. Dos migrantes que possuem intenção de cruzarem para os Estados Unidos, mais de 73% nunca estiveram nos EUA antes. 

De acordo com “Encuestas sobre migración en las fronteras Norte y Sur de México”, de 2015, mais de 56% dos imigrantes possuem documentos. Apesar de mais de 95% deles afirmarem conhecer o serviço consular, apenas 20% dos repatriados estiveram sujeitos à proteção.

Quase 30% dos migrantes que cruzam para os Estados Unidos possuem de 20 a 29 anos. Nos Estados Unidos, mais de 35% dos migrantes trabalham no setor agropecuário, seguido pelo de serviços e comércio. 

O setor manufatureiro é o menos representativo no caso dos residentes nos EUA. Nos que tem como destino a fronteira norte do México, apenas 13% trabalham neste setor. Observa-se, portanto, o baixo dinamismo das maquiladoras em gerarem postos de trabalho no norte do México e nos estados do sul dos EUA.

O principal motivo para a imigração de mexicanos é a reunião com familiares ou passeio (31,3%), seguido pela busca por trabalho (30,8%) e trabalhar (21%). Isso é importante porque desmistifica o discurso de Donald Trump. 

O fato de grande parte dos migrantes possuírem documentos, não irem por motivos de trabalho e empregarem-se no setor agrário mostra como eles complementam a força de trabalho nos EUA, sendo um importante motor do desenvolvimento daquele país. Por outra parte, mostra como empresas estadunidenses dependem da força de trabalho mexicana.

Tais dados desmistificam também a afirmação de Trump durante a campanha do caráter das pessoas que cruzam a fronteira. É inegável que este espaço é securitizado, já que também é ambiente para o tráfico de drogas e de armas. Mas, ele é muito mais do que isso. 

Apresenta um forte componente humanitário e de sociedades com altos níveis de vinculação, econômica ou social. Assim como muitos cruzam em busca de maior estabilidade e uma permanência mais longa, a fronteira é também o caminho para quem trabalha do outro lado e regressa todos os dias para casa. Nesse sentido, ela reflete o dinamismo da relação bilateral entre os dois países.

O estado mais procurado pelos imigrantes nos Estados Unidos é a Califórnia, seguido pelo Texas e pelo Arizona. Mesmo em momentos em que a fronteira esteve mais fechada, como no pós atentados de 2001, ela continuou sendo uma instância importante da relação bilateral México-EUA. 

Neste cenário, ela adaptou-se às novas circunstâncias e continuou sendo palco de trocas diversas. De acordo com o Migration Policy Institute, 26,9% dos estrangeiros residentes nos EUA são mexicanos.

Um último elemento interessante da relação bilateral entre México e EUA e que reflete os vínculos sociais entre os dois países são as remessas enviadas por mexicanos residentes nos EUA. Segundo dados do Banco do México, no mês de fevereiro de 2017, chegaram no México mais de 2 bilhões de dólares, dinheiro enviado em sua quase totalidade por transferências eletrônicas em mais de 6 bilhões e 700 milhões de operações. 

Os números impressionam. Em 2016, a quantidade de remessas que chegaram no México atingiu seu máximo histórico, chegando a mais de 26 bilhões de dólares.

Os dados refletem o atual nível de interdependência entre México e Estados Unidos. Desde antes da assinatura do TLCAN, são países que compartilham intensos fluxos econômicos e sociais, o que somado ao fato de compartilharem fronteira, atribui um caráter muito particular à relação bilateral. 

O México não é, portanto, um parceiro comum dos EUA. Grande parte dos vínculos estabelecidos, apesar de serem afetados pelos desdobramentos políticos, possuem uma dinâmica própria e altamente complexa. 

Os números mostram que os EUA também serão afetados pelos desdobramentos da renegociação do TLCAN, ainda mais as cidades que estão na fronteira com o México. 

Ter clareza de que a dependência é mutua, ainda que assimétrica, é uma grande carta que a diplomacia mexicana deve usar nas negociações.

Marcela Franzoni é Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC-SP).


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