6 de março de 2017

AS CULPAS PELOS MALES DO MUNDO

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AS CULPAS PELOS MALES DO MUNDO

Uma das grandes virtudes das sociedades democráticas ocidentais é a liberdade que dá aos seus membros de olhar para o próprio passado com desprendimento e espírito crítico. 

Há quem diga, inclusive, que, depois das traumáticas experiências totalitárias do século XX (o nazismo e o stalinismo, sobretudo), levamos tal espírito às raias do absurdo, do exagero, e passamos a enxergar o Ocidente como o grande e quiçá único responsável por todos os males do mundo: a história do branco ocidental, desde então e num crescendo, é a história dos sucessivos holocaustos, físicos e culturais, que esse agente universal do mal impôs e impõe aos Outros.









Tal perspectiva suscitou, nas últimas décadas, sinceros e emocionados pedidos de “perdão” ao resto do mundo por parte dos líderes e das instituições ocidentais, pedidos de perdão pelos sofrimentos que o homem branco causou nos mais remotos cantos do planeta: da Coréia à Groenlândia, da Terra do Fogo à Tasmânia. 

Essa megalomania da culpa, essa partilha simplória do globo entre os ocidentais e suas vítimas inocentes –– partilha criada e propagada pelo próprio Ocidente ––, parece, porém, estar dando sinais de esgotamento, de fadiga; afinal, por mais autocrítica, arrependida e humanista que se reivindique, nenhuma civilização quer consumir-se a si própria no pântano da culpa e da autocomiseração.

Um caso paradigmático de tal esgotamento –– que curiosamente não tem suscitado muita atenção por aqui –– diz respeito às discussões em torno da escravidão africana. 

Em 1994, como é sobejamente conhecido, a UNESCO, a pedido do Haiti, lançou um ambicioso e longo empreendimento, “A rota do escravo” (http://www.unesco.org/new/fr/social-and-human-sciences/themes/slave-route/), voltado para o mapeamento da diáspora africana decorrente do tráfico negreiro. 

Impulsionada pelos ventos das teorias da diferença e do politicamente correto vindos da “inteligência progressista” do Ocidente, a empresa dedicou a quase totalidade da sua energia ao tráfico transatlântico, ao tráfico promovido pelos europeus e seus descendentes nas colônias da América, e prosperou, ganhando tanta visibilidade midiática e tanta importância política que pôde convenientemente deixar de lado outras diásporas suscitadas pelo tráfico de escravos africanos, entre as quais aquela em direção ao mundo árabe-mulçumano. 

A própria UNESCO, em 2007, reconheceu, digamos, a lacuna e, na apresentação do pioneiro congresso que patrocinou dedicado ao tema, registrou: “O objetivo deste encontro internacional foi fortalecer as atividades do projeto [A rota do escravo] em regiões que até há pouco não estavam contempladas, nomeadamente o mundo árabe-mulçumano” (http://www.unesco.org/new/fr/social-and-human-sciences/themes/slave-route/trade-in-the-arabo-muslim-world/). A sutil ampliação de perspectiva produziu, neste planeta de maniqueístas em que vivemos, consequências políticas e culturais nada desprezíveis, sobretudo na África e na Europa.

Pesquisas como a do historiador Salah Trabelsi trouxeram à tona evidências de que as caravanas que atravessaram o deserto rumo ao Magreb e ao Egito eram tão cruéis quanto os tumbeiros que cruzavam o Atlântico, que tais comboios se repetiram com mais ou menos intensidade por treze séculos (VII-XX), que a civilização árabe-mulçumana importou mais do que o dobro dos negros desembarcados na América e, sobretudo, que tão longevo comércio de homens acabou somente graças à intervenção europeia, graças aos ímpetos civilizatórios suscitados pelo arrogante mas por vezes útil humanismo ocidental. 

Tais evidências, é certo, não amenizam a brutalidade e a intensidade do tráfico Atlântico, nem melhoram, retrospectivamente, as condições de vida do escravo africano na América; saber das indignidades cometidas pelo outro não torna as próprias indignidades mais dignas.

Todavia –– e aqui está um ponto para reflexão que interessa sobremodo à sociedade brasileira contemporânea, corroída por uma histeria do politicamente correto ––, a partilha equilibrada das virtudes e vícios humanos entre os povos é um excelente antídoto contra a ideia pueril e improdutiva de que todos os males do planeta, e somente os males, vêm das “bestas brancas” do Ocidente e de que ser ou ter sido vítima de sua infinita maldade une a todos os demais, os colonizados, e os torna naturalmente virtuosos, mesmo quando cometem, por sua conta e risco, as maiores barbaridades. 

Diz o historiador senegalês Ibrahima Thioub, estudioso da escravidão no interior do continente africano, que senhor de escravos não tem nem cor, nem raça, nem religião determinadas, o que realmente o caracteriza é o ato de ter escravos e de servir-se deles. 

O raciocínio do doutor Thioub poderia, com enorme proveito para a partilha acima mencionada, ser estendido à maioria das práticas humanas, às virtuosas e às viciosas.


Jean Marcel Carvalho França, professor Titular de História do Brasil da Unesp de Franca.
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