1 de março de 2017

A luz do luar no final do arco-íris

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A luz do luar no final do arco-íris

A 89ª Celebração do Prêmio Oscar, ocorrida no último dia 26 de fevereiro, foi bastante diferente das últimas edições, alguns erros na apresentação, o testemunho contundente da extraordinária atriz Viola Davis e a pândega premiação final, de melhor filme, não serão esquecidos. 

O filme favorito da noite La la Land dirigido por Damien Chazelle, indicado em 14 categorias acabou levando seis prêmios para casa; os mais importantes o de Melhor Diretor (Chazelle), Melhor Atriz, Emma Stone e, sendo um musical, o de Música Original e Trilha Sonora. Emma Stone é uma atriz carismática e talentosa que terá uma grande carreira.









Já o escolhido como Melhor Ator Casey Affleck por Manchester by the sea (2016) me parece um erro, ele tem muitas limitações de interpretação, é monocorde e tem uma voz ruim, esperemos o futuro. Denzel Washington faz uma interpretação de muita força em Fences (2016) e era de longe o melhor candidato, a decepção ficou estampada em seu rosto. 

Como exemplo de sua performance, lembro uma cena do início do filme, quando o seu filho vem pedir-lhe dez dólares emprestados, a variedade de expressões e emoções que ele mostra com a sua voz, suas expressões faciais, sua movimentação nos ambientes, com falas quilométricas, numa cena que dura mais de dez minutos é antológica para a história do cinema. E o seu embate dramático com Viola Davis é algo essencial para qualquer estudante de audiovisual. Ela ganhou o merecido prêmio.

A grande surpresa da noite foi o reconhecimento da qualidade do filme Moonlight (2016), que recebeu o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Mahershala Ali, Melhor Roteiro Adaptado e principalmente o mais importante da noite o de Melhor Filme, merecidamente. 

O prêmio entra para a história do Oscar pelo engano cometido com os envelopes da premiação, pura confusão que o nervosismo causa nestes eventos. La La Land chegou ao Oscar consagrado, mas o grande vencedor no evento foi Moonlight. A luz do luar ofuscou o arco-íris.

O prêmio de melhor documentário em longa metragem para O.J.: Simpson Made in America foi um grande erro, o pretenso trabalho é uma ficção construída com elementos da vida do esportista e showman, é didático demais, detalhista demais e se esvazia nas mais de sete horas de duração.

Prevalece a voz dos entrevistados, um suposto julgamento das escolhas de O.J., que nunca teria querido representar os negros e apresentava-se como um não negro e não branco, a sua raça seria ser O.J. Pífio documentário de uma tragédia que já não tem nada a dizer, só apresenta uma vida que nunca chegou a ser extraordinária, só na tragédia atingiu grande proporção.

Na categoria de filme estrangeiro venceu o agora convencional cinema iraniano, que está se esvaziando de sua principal marca característica, que era a presença de atores não profissionais e histórias que eram difíceis de separar da destes indivíduos-atores. 

A encenação controlada e verborrágica vai descaracterizar a inovação que este cinema trouxe para o cenário do cinema mundial. The salesman (O apartamento, 2016) é o correspondente da world music no cinema.

Os dois filmes que estavam disputando a preferência de público e crítica na categoria eram, Um homem chamado Ove (A man called Ove, 2016), da Suécia e Toni Erdmann (2016) da Alemanha, que são superiores ao premiado. 

Toni Erdmann tem um roteiro inovador, sem pontos de virada, desenvolvimento ou clímax, as cenas se sucedem sem serem atreladas as anteriores ou ligadas a um final ou desfecho. Mostra que a vida moderna é assim, complexa e sem resoluções fechadas ou definitivas. 

Um homem chamado Ove fala da angústia existencial que costuma assolar os habitantes dos países nórdicos, propensos a crises de idade, pessoais, tudo isto com algum eco de Ingmar Bergman. 

O longa Tanna (2016) representante da Austrália estaria melhor em um festival de filme etnográfico, por mais que tenha ficção prevalece o registro da cultura, da língua e do ambiente dos nativos do pacífico, que representam o seu dia a dia na obra. 

Nas sinopses do filme é dito que um dos diretores, Bentley Dean, viveu entre eles na ilha de Tanna no pacífico sul; Robert Flaherty já viveu com os esquimós no extremo norte do Canadá para produzir o primeiro documentário da história do cinema, Nanook, o esquimó de 1922.  

E em 1926 ele ainda realizou Moana com os nativos de Samoa, que neste ano voltou como animação. Tanna não tem nada de novo e está na categoria errada, o filme é um documentário (antropológico).


O filme mais interessante (e esquecido) dos cinco era Land of mine (Under sandet, 2015), literalmente ‘sob a areia’, da Dinamarca. Em uma conhecida plataforma de avaliação de audiovisual, o filme alcançou oito pontos, de um máximo de dez. 

A história é real, fala da utilização de prisioneiros de guerra alemães, na limpeza das minas que foram colocadas pelos nazistas nas praias do país, para evitar a chegada das tropas aliadas. 

Estes soldados são extremamente jovens e estão assustados e cansados. Eles fazem parte da loucura final germânica que conclamou o povo a participar de uma ‘Guerra Total’. Joseph Goebbels, ministro da propaganda de Hitler, criou o Volkssturm (Exército do Povo) incitando homens entre 13 e 70 anos a defenderem até a morte o seu país. 

A Dinamarca ficou anexada entre abril de 1940 e maio de 1945, teve uma ocupação branda, já que o seu povo era considerado nórdico, de similar procedência racial ariana. Já os dinamarqueses não tinham o mesmo apreço para com os alemães e inclusive não entregaram seus judeus para o regime, enviando-os para a Suécia. 

Este não alinhamento ao regime do Fuher explica a violência no tratamento destes jovens que obedeciam mais aos seus familiares e ao regime do terror, do que acreditavam numa superioridade germânica, pois foram arregimentados num momento de desespero e de decadência.


Em 1942 Goebbels escreveu o roteiro do filme Kolberg (1945) mostrando a resistência heróica da cidade de Kolberg na Prússia alemã, ao avanço de Napoleão em 1813. Liderando a população está o prefeito da cidade Joachim Nettlebeck, de orgulhosos 70 anos declarados, o ator que o vivia Heinrich George tinha meros 52 anos. Uma propaganda esquizofrênica e desonesta que incitava a população a morrer lutando pela Alemanha. 

O filme foi um fracasso e a adesão ao Volkssturm se deu pela força. No filme Under Sandet este sentimento está estampado nos olhos tristes, arregalados e rostos feridos destes órfãos alemães.


A escolha do tema é bem pouco convencional, o diretor Martin Zandivliet mostra o destino destes jovens que foram forçados a desenterrar os dois milhões de minas que seus conterrâneos tinham colocado nas praias danesas. 

Estas praias são mostradas com uma tela panorâmica (formato 2:35, os canais a cabo tem formato 1:69 para comparar), e lembram as fotografias de guerra de Robert Capa, inclusive com um colorido desbotado, como os que ele produziu com os primeiros filmes coloridos que circulavam durante o período. 

As locações são as reais praias de Oksbollejren ocupadas pelos alemães na época. Os próprios oficiais dinamarqueses acabam entendendo que estes jovens nada tinham a ver com a geração que causou a guerra e o sofrimento de tantos seres humanos e acabam sentindo compaixão pelo triste destino deles, mas pouco podem fazer. 

Pena que este filme nem estreou nos cinemas brasileiros, vale a pena tentar assisti-lo junto com os dois grandes vencedores do Oscar deste ano.


João Eduardo Hidalgo é Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo e pela Universidad Complutense de Madrid. Professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.
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