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3 de março de 2017

A jornada invasora das espécies exóticas

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A jornada invasora das espécies exóticas

Muitas vezes quando nos referíamos a palavra inglesa alien, imaginamos de imediato alguma relação com seres oriundos de outros planetas. 

No entanto, num contexto mais biológico e terreno, essa palavra pode ser referenciada também a seres terrestres. Isso mesmo, por mais estranho que pareça, algumas espécies podem ser consideradas como alien species, isto é, no bom português, espécies invasoras ou exóticas.








No cotidiano não notamos tal peculiaridade. Porém, muitas das espécies que suprem nossa dieta, como árvores frutíferas e legumes, tão dispersos e produtivos no Brasil, não são nativas do nosso país, e as vezes, nem mesmo da América do Sul. Um bom exemplo, a manga (Mangnifera indica), fruta amplamente difundida e com bom desempenho ecológico em toda a porção tropical e subtropical do territorial nacional, é na verdade uma espécie indiana.

Apesar do benefício alimentar para a população humana, se o olhar for direcionado para uma vertente mais ambiental, as espécies exóticas serão vistas como um fator de ameaça para muitos ecossistemas. Geralmente, as espécies exóticas são generalistas e de fácil adaptabilidade a novos ambientes, características que as colocam em um patamar competitivo similar ou até mesmo mais vantajoso que as espécies nativas. Tal competição pode desencadear desequilíbrios ecológicos tremendos, como já observado em diversos outros países.

O caso do sapo-da-cana, Rhinella marina, na Austrália, ilustra bem os efeitos negativos de uma espécie invasora. Com o objetivo de ser utilizado como controle biológico, esses sapos americanos foram introduzidos na ilha australiana em 1935 para combater o besouro-da-cana que ameaçava os grandes canaviais da época. 

Desde então, esses anfíbios expandiram sua distribuição por mais de um milhão de quilômetros quadrados pela região tropical e subtropical da Austrália, e surpreendentemente, novos relatos indicam que esses sapos estão adentrando inclusive em regiões áridas. Contudo, a avassaladora invasão desses sapos não é o maior dos problemas ecológicos. Por serem venenosos e potenciais presas de mamíferos e aves, quando os sapos são predados e consumidos, seus predadores são altamente intoxicados e eventualmente vem a óbito devido à sua baixa resistência a toxidade do veneno. 

De fato, diminuições em populações de uma espécie de gato-marsupial (Dasyurus hallucatus) com a chegada dos sapos já são documentadas. Tais declínios populacionais podem se expandir por toda cadeia trófica, um fenômeno ecológico conhecido como cascata trófica. Basicamente, esse fenômeno é caracterizado pelo desequilíbrio populacional, aumento ou queda no número de indivíduos, de uma espécie que afeta diretamente a população de uma espécie subjacente nas relações tróficas de determinada comunidade.

No Brasil encontramos problemas ecológicos semelhantes, inclusive envolvendo um anfíbio. 

A rã-touro, Lithobates (Rana) castesbeianus, introduzida visando consumo alimentar humano através dos ranários, é hoje uma espécie invasor que assola grande parte do país. Essa espécie compete com as rãs nativas, as do gênero Leptodactylus, por possuírem nichos ecológicos semelhantes, no entanto a espécie invasora e generalista muitas vezes sai vitoriosa dessa competição. Além disso, a rã-touro é um voraz predador o que pode acarretar em desequilíbrios ecológicos como no caso australiano.

Entretanto, a invasão biológica é também ecologicamente negativa quando analisamos as plantas. 

O Cerrado brasileiro é um ecossistema que sofre muito com a invasão da gramínea do gênero Brachiaria, planta forrageira nativa da África, que compete com as gramíneas nativas e sufoca o desenvolvimento dos campos naturais do ecossistema. Além desse exemplo, inúmero outros podem ser discutidos, e cada um envolvendo uma interação o que culmina em efeitos diferentes em cada ecossistema. 

A imensa desse problema ecológico ficou mais evidente recentemente com a publicação de uma aritgo científico na revista Nature Communications, revelando que o número de espécies invasoras documentadas está aumentando ao redor do globo e sem perspectiva de diminuição. Os pesquisadores infelizmente concluem que atividades humanas como comércio de animais, turismo e agricultura expansiva podem fortalecer esse aumento drástico da invasão biológica.

Embora a introdução de espécies exóticas possa perturbar fortemente ecossistemas e inclusive causar extinções locais, os poucos esforços dirigidos para o controle desse problema não são suficiente. O cenário é complicado paras as espécies nativas e, por isso, esforços e mais atenção deve ser voltada para um problema tão grave que pode levar a desequilíbrios ecológicos irreversíveis.

Aritgo citado: Seebens, Hanno, et al. "No saturation in the accumulation of alien species worldwide."Nature Communications 8 (2017): 14435.

Rodolfo C. O. Anderson é mestrando do Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro.


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