15 de fevereiro de 2017

Por uma maior abordagem (interativa) na literatura africana

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Por uma maior abordagem (interativa) na literatura africana

No mundo dos livros, nada parece ser novo ou ultrapassado demais para ser discutido. Mas muitos podem ser considerados curiosos ou ousados. Enfrentar a narrativa linear, de tempos em tempos, entra na moda e, mesmo que dificilmente alavanque as vendas de um livro interativo desse porte, impacta e marca os leitores de seu tempo.

 “Dramas interativos”, como são conhecidos, não são novidade para o público leitor. Desde 1929, com o lançamento do livro The Roman Hat Mystery (Ellery Queen), o mundo sabe como é poder ler sem seguir a ordem numérica sequencial. 









Mais do que quebra de tradicionalismo, estes livros “terceirizam” ao leitor o rumo de como a narrativa deve seguir, sendo ele o responsável pelo sucesso ou não do protagonista ou de um grupo deles. Não é à toa que as séries desses livros dialogam, logo na capa, com o leitor, numa espécie de convocação: Choose a PathChoose Your Destiny, Choose Your Own Ending, entre muitas outras.

Longe de ser mera literatura infantil, tal modo de construção narrativa foi adotado por grandes nomes da literatura mundial, como Jorge Luis Borges (o conto Exame da obra de Herbert Quain, encontrado em seu livro Ficções é tipo como a principal manifestação desse tipo na literatura) e Julio Cortázar (O jogo da amarelinha). 

Também foi usado em livros de conteúdos acadêmicos nos anos 50 e 60 nas séries conhecidas como “teach yourself”, por autores da área das ciências exatas como Norman A. Crowder (The arithmetic of computers Adventures in Algebra) e Charles H. Goren (The elements of bridge), humanas como John Clark Pratt (The Meaning of Modern Poetry) e Ruth Frieman (Understanding Shakespeare: Macbeth) e biológicas como Arnol Veryl Wolf (Body Fluid Metabolism: A TutorText) e Galen W. Ewing e Royal B. Leach (Chemistry), só para citar alguns, a fim de transmitir o conteúdo – muitas vezes maçante – de forma interativa ao aluno.

Porém, apesar de extensa produção bibliográfica dos textos interativos não lineares, não é para todo assunto que se encontra uma forma dinâmica de leitura sobre o assunto: não foi conhecido, até então, livros interativos que tratassem, por exemplo, de lendas africanas para jovens leitores. Encontram-se no mercado centenas de livros ilustrados e antologias, mas nada em que diz respeito à leitura não linear cujo conteúdo é imprescindível para a própria cultura do nosso país. Aliás, nem mesmo no Brasil se encontra tal tipo de literatura. 

Optou-se por traduzir séries aclamadas e altamente rentáveis em números de vendas como, por exemplo, a Escolha sua Aventura (Choose Your Own Adventure) e a Aventuras Fantásticas (Fighting Fantasy), destinadas aos públicos infantil e infanto-juvenil, respectivamente, o que foi tendência na maioria dos países que buscavam atingir o jovem leitor dos anos 70, 80 e meados de 90. 

Ainda no fim do século passado e início do presente essa prática é renovada e adaptada, e bons avanços temáticos vêm ocorrendo nos enredos, mesmo que ainda muito presos a estereótipos. São exemplos a série East African Adventures (com sua curta minissérie de três livros - The Hunting Safari, The Canoeing Safari e The Village Safari - ambientados no Lago Victoria da Tanzania) e livros como o de Edward Packard (Africa: Where Do Elephants Live Underground?, um dos muitos títulos da famosa série Choose Your Own Adventure) e African Safari (Richard Brightfield), geralmente usando a temática do turista em busca de aventuras nas terras exóticas do continente. Exceção à regra é a obra de Jo-Na Ritchie, Have It Your Way: An African Adventure, na qual o leitor é um voluntário-missionário.

Interessantes tentativas foram feitas nos livros-jogos (junção de leitura não linear com regras simplificadas de RPG, geralmente seguindo um sistema criado pelo próprio autor da série) Espectro (Flávio Andrade) e Renascido (Carlos Klimick), os quais apresentam figuras do folclore brasileiro como o Curupira (encontrado em cima de um armazém da zona norte do Rio de Janeiro capital, sem pelos ruivos e trajes indígenas e podendo se metamorfosear em gato, macaco e outros animais) e Kanaíma (essa bem próxima do conhecido meio-mulher meio-onça pintada a qual aceita ajudar o protagonista em sua busca em troca da manutenção da sua espécie – sim, o acasalamento), respectivamente, totalmente descontruídas, as quais passam ao leitor uma outra visão do estereótipo trabalhado, normalmente, em sala de aula/biblioteca escolar ou em casa.

A Literatura Africana é rica em histórias como Jabulani e o leãoA Lenda de Oxum e As lendas de Baobad, e deveria ganhar versões interativas não só visando cumprir a lei nº 10.639, de 9 de Janeiro de 2003 e a Resolução nº 1, de 17 de Junho de 2004. Deve sensibilizar e motivar alunos, pesquisadores, professores, autores e estudiosos do tema e proporcionar aos seus mais variados leitores essa ferramenta alternativa de leitura.

Pedro Panhoca da Silva é mestrando em Literatura do programa de Pós-Graduação em Letras da Unesp – Câmpus de Assis.



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