24 de fevereiro de 2017

Linguística: uma ciência oculta

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Linguística: uma ciência oculta


No ano passado, o Curso de Linguística Geral (1916) de Ferdinand de Saussure (1857-1913) fez cem anos. Com ele, surgiu a Linguística Moderna, deixando para trás velhas teorias e metodologias de investigação da linguagem. 

O CLG veio de apontamentos de seus poucos alunos, compilados e organizados por dois de seus colegas professores em Genebra: Charles Bally e Albert Sechehaye, que conheciam bem o pensamento de Saussure. 

Em 1995, foram descobertas anotações do próprio Saussure para as aulas que serviram de base para o CLG. Há uma coerência muito grande entre o que seus colegas compilaram e o que o próprio Saussure escreveu. 









O início da Linguística Moderna está nesses documentos. Porém, a própria teoria e a metodologia surgiram do esforço de muitos linguistas da época e posteriores que definiram o verdadeiro caráter científico para os estudos linguísticos.

Na prática, a Linguística Moderna ficou à margem das escolas, que continuaram com uma visão lógica e filológica. As pesquisas linguísticas ficaram de fora do ensino durante décadas e somente nos últimos anos têm sido reconhecidas como ciência da linguagem. 

Um bom exemplo é o fato de um bacharel em Linguística não poder dar aula de português: um especialista preterido por uma visão pedagógica equivocada. Se a Linguística não começa na escola, difícil é combater a ignorância na área e os preconceitos contra os usos da linguagem. 

Durante cem anos, os linguistas desenvolveram um conjunto de áreas fundamentais e muitas subáreas com objetos específicos. 

A partir dos estudos em Fonologia, em Sintaxe e em Semântica, surgiram, entre outras áreas, a Sociolinguística, a Aquisição da Linguagem, a Análise do Discurso, a Pragmática, a Fonética de Laboratório, a Linguística Histórica e, mais recentemente, a Linguística Cognitiva. Essas áreas deveriam servir de base para o ensino de Português desde a alfabetização. 

Porém, continuam ocultas às autoridades encarregadas da educação, porque os currículos seguem modelos arcaicos de estudos da linguagem, desde a alfabetização até os cursos superiores. Muitos problemas escolares poderiam ser resolvidos se a escola ensinasse mais Linguística Moderna. 

Além disso, os exames nacionais levam as escolas a preparar os alunos, desde os primeiros anos, a lidar com noções antigas de gramática e a ignorar totalmente a contribuição secular da Linguística Moderna. 

Porque as escolas não usam a Linguística Moderna para ensinar português, a sociedade fica apenas com noções antigas e superadas de como entender como a linguagem é e como funciona. 

Isso se reflete não apenas nas conversas, mas também em muitos artigos de jornais e de revistas, em noticiários da televisão.

Voltando às suas origens, Saussure, que pertencia a uma família de cientistas e vivia um ambiente de grande desenvolvimento científico no final do século XIX e começo do XX, mas que gostava de estudar a linguagem, se via atormentado pelo fato de a linguística de sua época não ter um embasamento científico, como as ciências exatas. Atormentado e nem sempre muito satisfeito, começou a traçar um novo fundamento para os estudos linguísticos. 

Como a matemática é a base de toda ciência, começou estabelecendo uma equação: L = S + I, ou seja, a linguagem é a soma de sons e de significados. Além disso, o objeto primordial de estudo é a fala comum das pessoas e não a escrita. 

Estava definido um objeto chamado “signo” para a nova linguística. Os desdobramentos dessa ideia são o fundamento da Linguística Moderna. 

Em seus apontamentos, há muitos modelos matemáticos aplicados à interpretação da linguagem, como o sistema de coordenadas que explica como o léxico e a sintaxe se articulam, isto é, os eixos paradigmático e sintagmático; princípios geométricos de triangulação para explicar o que é distintivo ou não na fonologia e até as noções de sincronia e diacronia. 

Há considerações importantes a respeito da arbitrariedade do signo que vão explicar a variação linguística entre línguas, dialetos e modos individuais de falar. Nota-se também que Saussure tinha uma grande preocupação com a investigação do funcionamento da mente a partir dos fatos concretos da linguagem, o que hoje chamamos de semântica cognitiva.

Embora Saussure não tenha visto sua obra germinar e transformar o mundo, o pouco que deixou com o muito que pensou e propôs revolucionou não apenas os estudos linguísticos, mas, através da linguagem, como entendemos o mundo e as ciências.


Luiz Carlos Cagliari é professor do Departamento de Linguistica da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.
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