25 de fevereiro de 2017

Estrelas Além do Tempo: Aristocracia Matemática

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Estrelas Além do Tempo: Aristocracia Matemática

O título “Estrelas além do Tempo” (EUA 2017 - Dir. Theodore Melfi) não parece ser uma boa expressão para verter em português o original “Hidden Figures”. Mesmo considerando que os títulos não devem ser, necessariamente, traduções e sim adaptações ou versões para um mercado específico. O título em português parece não dizer muita coisa sobre o filme. 

A obra, no entanto, diz bastante sobre temas que já conhecemos bem, segregação racial e preconceito de gênero. Por mais que estes temas sejam de grande importância e figurem como motivos culturais contemporâneos por excelência, não são suficientes, nesse caso, para levar o filme ao status de grande obra cinematográfica. 

A condução soa, a todo tempo, marcada por um modelo bastante conhecido e repetido, mesclando cenas pensadas para provocar indignação com momentos de descontração, sob apelos musicais e cômicos. 








Por esse motivo o filme já foi rotulado como um“feel-good movie that hurts”. Vale destacar que o aspecto “feel-good” deve muito a boa trilha sonora de Hans Zimmer, Pharrell Williams e Benjamin Wallfisch.

A história é baseada na experiência de Katherine Johnson (Taraji P. Henson), uma matemática afro-americana que participou do grupo de engenheiros e matemáticos responsáveis pelo lançamento dos foguetes que colocariam o primeiro americano na órbita terrestre. Ao lado das colegas Dorothy Vaughn e Mary Jackson, Katherine Johnson teria sido peça fundamental neste que foi o primeiro contra-golpe americano na corrida espacial (os russos já tinham colocado Yuri Gagarin na órbita terrestre meses antes). 

A NASA contava então com equipes compostas por “computadores humanos”, pessoas responsáveis pelos inúmeros cálculos que envolvem atividades relacionadas à astronomia e astronáutica.

Vale esclarecer que o grupo de “computadores humanos” retratado no filme existiu porque agência espacial americana ainda seguia normas que distinguiam os funcionários negros dos brancos, separando os banheiros e refeitórios, e não porque a agência tivesse criado um grupo de trabalhadoras negras para calcular lançamentos. Um dos problemas enfrentados pelas profissionais do cálculo era a falta de banheiros para negros em pontos da planta da agência espacial nos quais não se esperava que negros viessem a trabalhar.

Em uma cena que acaba se tornando recorrente no filme, explorada tanto pelo aspecto de gritante injustiça quanto pelo aspecto cômico, Katherine Johnson tem que se deslocar aproximadamente 800 metros de sua mesa de cálculos para usar o banheiro. 

A cafeteira da sala de trabalho da equipe responsável pela missão que levaria John Glen (primeiro astronauta americano a entrar em órbita terrestre) era vedada ao uso de negros (colored). 

Estas condições de trabalho somada a inúmeras medidas segregacionistas dão o tom de um absurdo de divisão racial e social em que viviam os Estados Unidos ainda no início da década de 60.

A impressão de um absurdo social retratado no filme se acentua, sobretudo, por se tratar de uma história que se passa em um ambiente supostamente ilustrado, pois ligado à ciência e ao conhecimento. 

O grande público, que provavelmente não conhece ambientes científicos, pode estranhar o fato de que homens de ciência possam se comportar de maneira retrógrada e preconceituosa. 

O filme chega até a desenvolver esse aspecto, o fato de que os ambientes científicos não estão imunes a tendências sociais e políticas as mais diversas. Em vários momentos a direção insiste em deixar claro que fazer parte de uma comunidade científica não constitui nenhum atestado de moralidade. 

O filme de Theodore Melfi traz, além das mensagens ativistas, (direitos civis, feminismo), causas mais do que legítimas, uma verdade ainda mais pungente, e não tanto agradável para a maioria de nós. 

A saber, a de que existe, e sempre existiu, uma “aristocracia matemática” no mundo em que vivemos e o fato de que, como toda a aristocracia, ela é vedada à maioria. Nesse sentido a maior segregação é a efetivada pela própria natureza. 

Não há luta política que mude este estado de coisas. A aristocracia matemática se revela a todos desde os primeiros anos escolares. Sabemos que uma pessoa é mais inteligente que a média se ela tem melhores resultados em matemática. Essa distinção independe de classe, gênero, cor, credo ou sexualidade.

Katherine Johnson provou que a natureza e uma formação científica sólida não se curvam a preconceitos construídos culturalmente. O filme está muito aquém de seu talento matemático.


Eli Vagner Francisco Rodrigues é professor do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade e Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.
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