16 de fevereiro de 2017

'A Sociedade do Espetáculo' completa 50 anos

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'A Sociedade do Espetáculo' completa 50 anos

Com o acentuado desenvolvimento tecnológico em diversas áreas a partir da metade do século XX, novas formas de se relacionar sócio e subjetivamente estão associadas a tais avanços. 

No que tange ao mundo das comunicações, o que nos interessa focalizar aqui, os meios de comunicação de massa e a denominada “indústria cultural”, já estudada em meados dos anos 1920 e 1930 pelos integrantes da Escola de Frankfurt, são poderosas ferramentas de produção e reprodução de subjetividades, além de alterar substancialmente os modos como subjetivamos o mundo e como passamos a nos relacionar socialmente, ainda mais se pensarmos na radicalização destes processos por conta da popularização, sobretudo nas últimas décadas, dos aparelhos de telefonia móvel, da Internet e das redes sociais virtuais.









A obra seminal A Sociedade do Espetáculo do francês Guy Debord (1931-1994), “doutor em nada” para nos valermos da definição do próprio, publicada há 50 anos (precisamente no dia 14 de novembro de 1967), discute e reflexiona que a partir deste contexto de explosão das tecnologias comunicacionais, fase “espetacular” do desenvolvimento do capitalismo conforme o autor, passamos a nos relacionar primordialmente através de imagens, como diz Debord logo no início do texto dele: “tudo que era realmente vivido se esvai na fumaça da representação”. Sendo fundamental que as imagens estão descoladas daquilo que representam, além de terem se tornado mais importantes do que aquilo que representam. 

Ao navegarmos por perfis de redes sociais, como Instagram ou Facebook, podemos notar que tais aspectos apontados por Debord em 1967 se constituem como realidade subjetiva e social na contemporaneidade e ainda têm forte correspondência no mundo de 2017.

Seguindo a lógica do espetáculo, através dos espelhos pretos (referência ao título da intrigante, fundamental e famosa série britânica “Black Mirror”) – telas dos aparelhos celulares, tablets, televisões e afins – a instância do aparecer/parecer sobrepuja a do ser, uma vez que, reforcemos e repitamos, a imagem, para além de se descolar daquilo que representa, se torna, inclusive, mais importante do que isso. Assim, por exemplo, a imagem de parecer honesto, feliz, infeliz, etc., é mais importante do que efetivamente ser honesto, feliz, infeliz, etc. 

Frases usuais como “tenho uma imagem a zelar” ou “é necessário preservar a imagem” sintetizam muito bem esta supraimportância do imagético e do parecer. Dois exemplos recentes envolvendo a chamada “crise dos refugiados”, acentuada no segundo semestre de 2015, nos permite visualizar esta lógica espetacular prevalecendo, quais sejam: (1) a repórter de uma TV húngara que, durante a cobertura do episódio, passou uma rasteira em um pai que carregava seus filhos. 

Por ter sido flagrada e a imagem do ocorrido ter sido amplamente difundida, a emissora demitiu a jornalista e afirmou ser contrária a tal tipo de conduta, ação que, muito provavelmente, não tinha outra razão a não ser “limpar” a imagem do canal televisivo; (2) a chocante foto do garotinho sírio, Aylan Kurdi, encontrado morto em uma praia da Turquia que, conforme o professor Vladimir Safatle, conseguiu produzir muito mais afetação na comunidade internacional frente a grave crise humanitária envolvendo os refugiados do que a própria trágica crise em si. Assim sendo, registros imagéticos espetaculares suplantam e são superdimensionados frente àquilo que estão representando.

Uma possível atualização radicalizada da ideia de espetáculo de Debord é a noção de simulacro em Jean Baudrillard publicada no início da década de 1980. Um aspecto central que dá vazão ao processo de constituição do simulacro é a simulação, a qual, segundo Baudrillard, se engendra em fingir ter o que não se tem. 

Outra característica fundamental é a de que no simulacro não há distinção entre falso e verdadeiro, pois, tal como no espetáculo, ainda que por razões um pouco diversas, a simulação suspende qualquer relação entre o referente (representante) e o referenciado (representado), o simulacro é “irreferente”. Destarte, não haveria verdade ou mentira, real ou irreal, mas sim hiper-realidade e imagens mais que reais que realidade.

Enfim, ainda que escrito há 50 anos, quando a comunicação instantânea e virtual sequer existia e o aparato tecnológico para difusão de imagens e sons não cobria o globo completamente, A Sociedade do Espetáculo de Guy Debord nos parece extremamente atual e relevante para pensarmos como essa vida conectada constantemente e em frente a telas/”espelhos pretos” influi nos modos como subjetivamos e nos relacionamos com os outros e com o mundo.

Mateus Pranzetti Paul Gruda é doutor em Psicologia pela Unesp de Assis.
Referências

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação. Trad. Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio d’Água, 1991. Publicado originalmente em 1981.


DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo: comentários sobre a sociedade do espetáculo. Trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. Publicado originalmente em 1967.

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