23 de janeiro de 2017

São Paulo vai soprar velinhas mais uma vez: há o que comemorar?

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São Paulo vai soprar velinhas mais uma vez: há o que comemorar?


            Tudo o que traz escrito “na testa” beleza é beleza falsa, é feiura: estas argutas palavras de Giacomo Leopardi, um dos maiores poetas europeus do século XIX, aplicam-se a São Paulo, cidade considerada “feia” por muitos, quase sempre associada à poluição constante, ao trânsito insuportável e às inundações frequentes. Naturalmente, o poeta-filósofo italiano se referia à avaliação estética de obras de arte em geral, mas, imbuído de amor filial e estimulado pela distância da “feia” cidade em que nasci, cresci e me formei, arrisco afirmar que a beleza de São Paulo existe e não é “escancarada”. Onde se encontra tal beleza oculta: no mesmo conjunto de fatores que lhe provocam a feiura, isto é, no intenso dinamismo, na frenesia e no amálgama de povos e culturas que a plasmou ao longo de sua história.









            Nem sei quanto anos faz São Paulo. Em 1954, quando o Ibirapuera foi criado, a megalópole brasileira estava completando 400 anos, se não me engano. Nem é necessário fazer cálculos: São Paulo é velha e jovem ao mesmo tempo. Explicando a aparente antítese “nonsense”: é idosa por ser antiga num país do Novo Mundo, mas é jovem pelo dinamismo que ainda dá mostras de possuir muito fôlego, apesar dos problemas aparentemente insolúveis.

            Há o que comemorar? Sim, tal qual o consolo das pessoas de idade muito avançada, qualquer ano a mais constitui sempre um enorme ganho. Não basta, porém, para que a expressão dos rostos em volta do bolo com mais de 400 velinhas seja apenas de incontrolada alegria. Algumas lágrimas naturalmente escorrem dos olhos quando se pensa no estado em que a Pauliceia se encontra.

            Inútil discutir ainda a falta de planejamento do passado que a levou ao estado atual de semi-paralisação, seja pelo trânsito constantemente “travado”, seja pela profusão de homeless e de miséria, tanto nas regiões centrais como nas periferias.

            Não se considera uma cidade isoladamente, pois ela pertence a um país que vivencia uma enorme crise, tanto econômica como ético-moral. São Paulo sofre com os desmandos de Brasília, mas também devolve a agressão sofrida, impulsionando ainda mais a “feia fumaça que sobe apagando as estrelas” (como diria Caetano!), pichando e sujando as paredes e descuidando-se dos seus centros culturais e museus de arte e história.

            Como paulistano, filho de imigrantes italianos, sei que não há cidade igual no país no que diz respeito ao caldeirão de povos e culturas. Mais do que integrados, tais povos deixaram-se devorar pela desvairada metrópole, misturando-se e evitando, salvo exceções, a constituição de guetos e de bairros exclusivos. De fato, não há mais o “bairro dos italianos” ou “dos japoneses”. Para o bem ou para o mal, cada vez mais tudo se uniformiza e as divisões passam a ser tão somente quanto ao menor ou maior poder aquisitivo.

            O futuro de São Paulo está, sem dúvida, associado indissoluvelmente ao futuro do país, mas ainda acredito que esta “senhora idosa” consiga reerguer-se, fazendo valer o dinamismo que a caracteriza, desde que deixe de fingir ser a versão tropical da “Big Apple”.

            Está na hora, portanto, da Pauliceia deixar de constituir apenas um ímã para os que buscam emprego ou para os que querem apenas acumular um quinhão suficiente para o regresso ao lugar de origem e refazer as próprias vidas. Chegou o momento, enfim, de convidar italianos, japoneses, sírio-libaneses, nordestinos, mineiros e outros para assumirem definitivamente a cidade em que vivem, dela tomando conta como do próprio lar, deixando um pouco de lado os legítimos desejos pessoais de enriquecimento ou somente de uma vida um pouco melhor.

            Parabéns, São Paulo! Que o vai e vem apressado de seus habitantes se detenha por alguns instantes e consiga contemplar a beleza oculta, que não se vê “na testa”, escondendo-se por baixo de tanta feiura e decadência! Espero ainda que todos os muitos paulistanos desejosos de abandoná-la revejam as suas intenções e dediquem os próprios esforços a cuidar melhor de você, devolvendo-lhe o espírito jovial que sempre a caracterizou!

Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.
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