5 de dezembro de 2016

O que pode significar a vitória do “não” para a política italiana

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O que pode significar a vitória do “não” para a política italiana


No momento em que escrevo, é quase certo que o “não” tenha obtido êxito no plebiscito em que o povo italiano foi chamado às urnas para julgar as reformas no sistema político italiano. 

A análise apressada da mídia já há algum tempo falava de uma possível saída da Itália da União Europeia ou de uma crise político-econômica mais profunda, com reflexos em outros países europeus, graças à inevitável saída do atual “premier” e à possível ascensão de um governo populista (e não europeísta). Sinceramente, não vejo como possa ocorrer nem uma coisa nem outra.

Em primeiro lugar, embora o afastamento de Matteo Renzi pareça inevitável, existe a possibilidade, garantida pelo sistema parlamentarista, de que ele próprio volte a compor um novo governo, cedendo provavelmente em algumas questões nas quais se manteve intransigente nos últimos tempos, tais como a manutenção no cargo da ministra Boschi, cujo pai esteve envolvido recentemente numa falência aparentemente fraudulenta de um pequeno banco. 









Outra possibilidade, muito aventada pela mídia internacional, é a de que Beppe Grillo, líder do movimento MS-5 (“Cinque Stelle”) seja convocado pelo presidente Sergio Mattarella para tentar formar um novo governo. Francamente, acho pouquíssimo provável que isto ocorra, pois embora o partido do ex-comediante tenha conseguido eleger a prefeita de Roma, a jovem Virgínia Raggi, trata-se de fenômenos locais, provincianos, que apenas os que desconhecem a história da Itália, da Idade Média até hoje, poderiam elevar a um potencial tão alto, capaz de ocupar o poder central. 

É difícil compor governos na Itália porque sempre foi, e ainda é, ao menos parcialmente, complicado compor uma nação unida. Os sentimentos de afiliação à província, isto é, à antiga comuna medieval, ainda prevalecem em muitas regiões italianas, em detrimento de um desejo de integração nacional, por muitos até identificado como negativo ou até impossível. 

Há dois aspectos nesta questão, sendo um positivo e outro bastante negativo. De positivo há o fato de que o país é bastante diversificado, não apenas no que diz respeito às belezas da paisagem natural e ao patrimônio artístico, mas também, e principalmente, com relação à economia ultradinâmica, com setores do artesanato, industrial ou não, rudimentar ou altamente tecnológico, de fazer inveja a países mais organizados como França, Inglaterra ou Alemanha. 

O aspecto negativo reside na falta de organização e de coesão interna, sempre às voltas com facções que nunca chegam a um consenso, que muitas vezes dilui ou esvai a diversificação e a criatividade artesanal, sujeitando-a ao domínio de povos menos criativos, mas muito mais disciplinados.

Tem sido assim ao longo da história dessa maravilhosa península e não vejo por que agora poderia ser diferente. O plebiscito tão somente levará a uma momentânea troca de primeiro-ministro e a uma nova composição de forças no governo, mas não haverá espaço para as soluções populistas de Grillo, pois o sucesso que o seu grupo obteve, por exemplo, na prefeitura de Roma se deve aos escândalos de corrupção em que se envolveu o governo municipal anterior da cidade eterna.

Também acho descabido comparar a saída da Inglaterra da União Europeia com uma possível saída da Itália depois do resultado do plebiscito e da derrota de Renzi.  

A Inglaterra (ou a Grã-Bretanha, embora haja divergências dentro dos vários países que a compõem) nunca se sentiu completamente à vontade dentro da Europa unida, tanto é que nunca adotou a moeda única, isto é, o euro. A Itália, porém, foi um dos fundadores históricos do Mercado Comum Europeu e da União Europeia e, apesar de certos grupos contrários, o seu povo, de modo geral, ainda acredita que foram maiores os benefícios do que os problemas trazidos pela adoção do euro.

A mídia mundial catastrofista enxerga apenas a tendência europeia atual para a escolha de governos populistas e xenófobos que querem resolver na marra o problema da “invasão” de desesperados em busca de refúgio e uma nova possibilidade de vida. 

Assim como Donald Trump, tais grupelhos assemelham-se a cães que ladram, mas não mordem, ou ao menos se trata de mordidas cujas feridas serão facilmente curadas pelos ventos de bom senso e de lucidez que o decurso dos tempos pacientemente trará. Assim espero!

Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.


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