1 de novembro de 2016

O “caso” Américo Vespúcio: quem deu o nome à Baía de Todos os Santos?

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O “caso” Américo Vespúcio: quem deu o nome à Baía de Todos os Santos?


Sérgio Mauro

Oficialmente ou, pelo menos, é o que normalmente os estudantes brasileiros aprendem nas escolas, a Baía de Todos os Santos deve o seu nome ao fato de ter sido descoberta pelos portugueses em 01 de novembro de 1501.

O “caso” Américo Vespúcio: quem deu o nome à Baía de Todos os Santos?

É o que consta também em enciclopédias da internet como a Wikipedia. Na Itália, porém, terra de Américo Vespúcio (ou Amerigo Vespucci, no original), são muitos os historiadores, valendo-se de cartas escritas pelo grande navegador florentino, que sustentam a tese (plausível) de que  Vespucci teria estado na Baía de Todos os santos alguns meses antes dos portugueses, tendo escolhido o nome para homenagear o bairro de Florença em que nasceu (Ognissanti , ou seja, Todos os Santos). 

A autenticidade das cartas do ilustre florentino - que emprestou o seu nome a um continente (América provém de Amerígo que se transformou, graças à pronúncia errada do cartógrafo alemão Martin Waldseemüller, em Amérigo e depois em Américo e América, isto é, a terra de Américo) - foi posta em cheque por muito tempo, mas hoje em dia parece haver um consenso entre os historiadores italianos de que pelo menos uma delas, a que foi por ele enviada a Lorenzo di Piero Francesco de’Medici, em 3 de junho de 1501, na qual há comentários sobre as terras de “gente branca e nua, as mesmas que descobri para os reis de Castela” (apud La Terra del Brasile, organização de Gabriella Airaldi, Verona, 2000), seja autêntica.

A viagem a que se refere Vespucci (ou Vespúcio) na carta foi comandada por Gonzalo de Coelho e realizada entre 1501 e 1502. Ele teria passado pelo Cabo de São Roque, Cabo de Santo Agostinho e pelas costas do Rio de Janeiro, chegando até a Patagônia. 

Há inclusive um documento de 1504 em que outro navegador, Giovanni da Empoli, numa carta enviada ao pai, comenta a descoberta do Brasil, atribuindo-a nada mais nada menos que a Vespucci! Seja como for, a polêmica não parece encerrada, assemelhando-se à invenção do avião, por nós atribuída a Santos Dumont, mas, no resto do mundo, aos irmãos Wright.

Hoje, portanto, Dia de Todos os Santos, feriado na Itália, mas não no Brasil, estaríamos comemorando não apenas uma festa religiosa, como também uma das sensacionais “descobertas” de Américo Vespúcio que, aliás, anda meio esquecido. 

Quer sejam autênticas, quer sejam fruto da fantasia do autor misturada com observações diretas, os relatos do navegador florentino impressionam ainda hoje. 

Nessas cartas, autênticas ou não, reunidas no volume Mundus Novus, há observações sobre os costumes dos índios, inclusive os sexuais, propositadamente exagerados para estimular a fantasia do leitor europeu da época, ávidos de descobertas de hábitos sexuais opostos aos permitidos pela moral católica. 

O que realmente chama a atenção, porém, é o espaço dedicado à antropofagia praticada pelos índios. Não há manifestação de nojo ou de horror nas cenas descritas e supostamente contempladas pelo navegador e pelos seus marinheiros, mas tão somente o desejo de ser o mais objetivo possível.

Seja como for, o “caso” Vespucci parece longe de uma solução final. Se considerarmos autênticos os documentos citados antes, uma parte da história brasileira teria de ser reescrita. 

Assim como o 12 de outubro, muito mais lembrado no Brasil como o dia da criança ou o de Nossa Senhora da Aparecida e nunca, ou raramente, como o da Descoberta da América, o Dia de Todos os Santos, além da festa religiosa, precisaria incluir ao menos uma menção às proezas de Vespucci. 

A Baía de Todos os Santos e o belo bairro de Florença em que o navegador nasceu passariam a constituir, assim, um “gemellaggio” totalmente original entre um acidente geográfico e um bairro específico de uma cidade histórica. 

No entanto, como se sabe, a história é frequentemente uma ficção escrita supostamente a partir de documentos que atestam certa realidade, perfeitamente mutável, perfeitamente adaptável, ao sabor dos ventos e dos interesses geopolíticos. É melhor deixar tudo como está, portanto, evitando a enésima correção de um evento histórico nos livros escolares e nos sites da internet.

Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.
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