3 de novembro de 2016

A FIFA quer acabar com o palavrão nos estádios de futebol brasileiros?

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A FIFA quer acabar com o palavrão nos estádios de futebol brasileiros?

             Pelo menos para uma coisa os soníferos jogos das eliminatórias sul-americanas para a copa de 2018 serviram: a FIFA criou coragem e resolveu punir as supostas ofensas homofóbicas perpetradas pela torcida brasileira no jogo contra a Bolívia do mês passado.  

Ora, a punição é mais do que justa, mas o remédio foi aplicado da maneira errada, pois, embora não seja tarefa da FIFA, a educação que visa ao ensino da tolerância e do respeito mútuo, da convivência pacífica e respeitosa com o próximo, seja qual for a sua etnia, seja qual for a sua opção sexual, seria a única e definitiva solução para o problema. Missão dificílima e quase utópica, mas a única com resultados palpáveis e sempre em longo, longuíssimo prazo.  

Há não muito tempo, as próprias leis,  baseadas no senso comum e na opinião de ilustres juristas, e a própria medicina, fruto de estudos milenares e de milhares de experiências em laboratório, considerava o homossexualismo uma doença. Também não foram apenas os nazistas que sustentaram por séculos a inferioridade de judeus e de outros povos, por exemplo. 

Houve até, no Brasil dos anos 20 do século passado, vozes respeitosas que julgavam a mistura de etnias do Brasil como superior a dos brancos ocidentais ou a dos orientais. Preconceitos contra os nordestinos, por exemplo, ainda que disfarçadamente, não estão ausentes de alguns contos de Mário de Andrade ou de Antônio de Alcântara Machado. 

            A ordem dos fatores não altera o produto: no afã de punir as ofensas nos estádios, seria preciso punir também o homossexual que desprezasse publicamente um heterossexual, ou o judeu que desprezasse a fé religiosa de um juiz de futebol católico. 

Enfim, qualquer forma de depreciação de uma escolha feita deliberadamente por um cidadão livre, quer no plano sexual, quer no plano religioso, deveria ser punida de modo igual, para os que pertencem à suposta minoria ou não. De resto, estabelecer quem é minoria ou maioria no quesito sexual já poderia se encaixar no rol de visões preconceituosas.

            Enfim, o critério utilizado pela FIFA, embora louvável, à medida que visa a coibir a falta de educação e a intolerância “folclóricas” dos estádios de futebol mundo afora, não me parece adequado. Estamos todos, pobres e ricos, analfabetos e intelectuais, brasileiros ou não, literalmente no mesmo barco, sujeitos à mesma condição humana, isto é, dotados de uma forma de razão diferente da de outros seres vivos que nos faz enxergar “detalhes” que vão além do puro relacionamento instintivo, pois estão imersos na nossa condição de animais que vivem em grupos, com regras e com deveres, além de poucos direitos, para os que deles puderem dispor, de acordo com a quantidade de poder e de dinheiro que conseguiram amealhar. 

Querer, portanto, liquidar tudo com um decreto que pretende corrigir comportamentos públicos de quem, uma vez no estádio, se liberta temporariamente de sua máscara de hipocrisia e dá vazão aos seus instintos animais mais recônditos, constitui um ato temerário, além de perfeitamente inútil e até perigoso, pois se sabe que o que se torna proibido da noite para o dia tem um “gostinho” melhor de doce transgressão, de alegre travessura.

            Enfim, os estádios de futebol, as horripilantes arenas de luta livre e quejandos transformaram o lúdico saudável em espetáculos de massa que, ao contrário das lutas entre gladiadores dos romanos, não têm mais a intenção de apaziguar as massas e torná-las dóceis oferecendo espetáculos cruentos. Hoje em dia, tais espetáculos eliminaram, no caso do futebol, o aspecto cruento e feroz, para com ele gerar, como em qualquer outro negócio, rios de dinheiro, aproveitando o desejo cada vez maior de alienação e escapismo, de libertação temporária e inútil das máscaras sociais associadas ao papel  que cada um de nós é obrigado a desempenhar. 

No caso das lutas ou pseudo-artes marciais, o sangue escorre, mas raramente se chega à morte do adversário, satisfazendo, assim, numa tacada só, os desejos sádicos que muitos de nós escondem sob o travesseiro e, evidentemente, movimentando a roda da economia, além de gerar empregos (palavrinha mágica!).

            Desse modo, as multas salgadas que serão pagas pela CBF talvez sirvam apenas para que os cartolas do futebol pensem nas estratégias a serem utilizadas de agora em diante para evitar futuras sanções, mas jamais conseguirão evitar o já tradicional festival de palavrões nos estádios. 

Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.
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