18 de outubro de 2016

Onde está Dante no filme “Inferno”, de Ron Howard?

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Onde está Dante no filme “Inferno”, de Ron Howard?

Sérgio Mauro e Claudia Fernanda

O filme “Inferno”, em cartaz nos cinemas de todo o país, deve o seu título ao romance homônimo de Dan Brown, autor de best sellers que não só não esconde, como também faz questão de deixar evidente os vestígios das suas referências às obras de Umberto Eco. Assim como o protagonista de “A chama da Rainha Loana”, o protagonista, emérito professor Robert Langdon, especialista em simbologia e conhecedor da Divina Comédia, também perde completamente a memória e precisa recuperá-la.
             
Desde o início, procura-se, de maneira um tanto confusa, misturar vários dados depreendidos da Vita Nuova (Vida Nova) e, sobretudo, da obra-prima de Dante: a Comédia (título original dado pelo poeta florentino à sua obra, uma vez que o epíteto “Divina” só foi acrescentado no século XVI). Assim, pouco a pouco, inconscientemente, o próprio professor, recuperando a memória, passa a se assemelhar ao poeta-viajante Dante, pois no início se encontra num “inferno” dentro de um hospital e é salvo por um suposto “Virgílio” (a médica que o liberta do hospital e impede que ele morra, assim como o grande poeta latino, a mando de Beatriz, salva Dante da “selva” e das “feras”, conduzindo-o pelo Inferno e em parte do Purgatório). Aqui, porém, as referências a Dante se embananam, levando a uma espécie de inversão, pois, uma vez fora do hospital, é o professor que conduz a médica pelos meandros dos belíssimos monumentos de Florença, escapando dos muitos “demônios” (os vilões da história) que querem eliminá-los.
            
A confusão torna-se ainda maior depois, uma vez que a médica “trai” o professor e o abandona à própria sorte, revelando-se uma seguidora da doutrina pseudo malthusiana de um tresloucado cientista, também conhecedor da “Comédia”, que quer criar um vírus capaz de eliminar uma parte da humanidade e tornar o planeta habitável, justificando a sua alucinada teoria com a “limpeza” que a peste negra fez na Idade Média da Europa e que teria sido um dos motivos do relativo progresso que se seguiu e do próprio Renascimento.
           
Se no início, portanto, a médica Sienna (qualquer semelhança com a cidade toscana Siena não deve ser mera coincidência) parecia lembrar vagamente Virgílio, apesar da referida inversão de papéis, nesta altura do filme ela lembra mais as “mulheres” que o Dante jovem conhece após a morte de Beatrice, isto é, a filosofia ou, em outras palavras, a ciência humana. Assim, a relativa atração que o professor Langdon sente por Sienna poderia remeter à atração que o jovem poeta italiano sentiu pelo aristotelismo radical e pela ciência humana como um todo, conforme podemos deduzir da leitura da autobiografia idealizada – a Vida Nova – escrita na juventude, antes do exílio.
           
No fim, Langdon, isto é, Dante, encontra a sua Beatriz (o que é dito de maneira explícita no filme), salvando-se do inferno a que tinha sido submetido pela insânia do referido cientista e salvando também a humanidade (assim como Dante, que tinha plena consciência do caráter “messiânico” da sua obra). Sienna morre afogada, assim como a personagem Ulisses, do canto XXVI do “Inferno”, punido, na visão de Dante, por ter ultrapassado os limites impostos por Deus ao conhecimento humano A médica e o cientista psicopata rasgaram a ética e a moral em nome de uma suposta salvação, sendo ambos punidos com a morte e o fracasso nos seus desumanos intentos.
            
No entanto, “Inferno”, apesar da engenhosidade das referências a Dante, não vai além do entretenimento, ainda que possamos considerá-lo um filme que não ofende a inteligência, tendo a virtude de ajudar a divulgar a obra de Dante, numa época refratária aos grandes clássicos, além das belíssimas tomadas aéreas de Florença e de Istambul. Peca, porém, pela caótica referência a passagens da Comédia e por um igualmente engenhoso, mas superficial, pastiche entre as aventuras de Indiana Jones e as peripécias de Lagdon-Dante pelo inferno dos humanos.
            
Do mesmo modo que o grande comediante Roberto Benigni, que se vale da sua fama de ganhador do Oscar e de engraçadíssimo (e inteligentíssimo) “clown” para divulgar os versos do grande poeta florentino nas suas memoráveis leituras públicas, o filme “Inferno”, assim como o romance homônimo tem o indiscutível mérito de fazer chegar às multidões algumas das profundas questões levantadas na “Comédia”. Ao contrário de Benigni, porém, Ron Howard (e Dan Brown) sucumbem às fórmulas dos filmes comerciais de entretenimento (ou dos best sellers), tornando a obra-prima de Dante palatável, mas, inevitavelmente, banalizando-a e destituindo-a da profundidade filosófica e da beleza poética.

Sérgio Mauro e Claudia Fernanda de Campos Mauro são professores da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.
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