26 de outubro de 2016

O vinho como prevenção do abuso de álcool

,


 O vinho como prevenção do abuso de álcool


            Como coibir o abuso de álcool entre os jovens brasileiros? Certamente não há uma fórmula mágica. Não seria possível, tampouco justo, a pura e simples proibição, isto é, uma espécie de “Lei Seca” no Brasil do século XXI. Não se pode estender a todos uma proibição que deveria afetar apenas os que fazem uso errado de bebidas alcoólicas. 

            No entanto, é forçoso admitir, mesmo para o mais entusiasta e refinado enófilo, que qualquer bebida alcoólica pode se tornar uma droga e causar dependência, quando usada de maneira excessiva e sem critérios. Naturalmente, os jovens e as pessoas com traumas pessoais constituem os grupos mais sujeitos à tentação do abuso de qualquer droga, lícita ou ilícita. 

            Isto posto, deve-se fazer uma distinção entre as várias bebidas, pois não acredito que uma pessoa possa se tornar um alcoólatra consumindo apenas vinho nas refeições. Há uma grande diferença entre o vinho e as outras bebidas. Não é por acaso que a bebida de Baco foi objeto de louvor explícito de grandes poetas, de Homero a Dante, de Baudelaire a Fernando Pessoa. Trata-se de uma bebida milenar, cujos efeitos benéficos já eram notados pelos antigos gregos e cuja eficácia na prevenção de doenças cardíacas, se usado moderadamente, já foi comprovada pelos pesquisadores contemporâneos. 

            Desse modo, pode parecer estranho e até contraditório, sobretudo num país como o Brasil, estimular a difusão de uma bebida “nobre” como o vinho para combater os efeitos perniciosos de outras bebidas, sobretudo os destilados “super-alcoólicos”. Evidentemente, a difusão do vinho só faria se sentido se acompanhada de uma campanha educacional visando à disseminação de informações sobre a história, sobre as referências na literatura e sobre os efeitos benéficos para a saúde, sobretudo do tinto. A moderação seria uma decorrência natural de quem quisesse se aproximar do mundo da enologia com curiosidade científico-cultural, evitando transformá-lo em mais um fator de alienação viciante.

            Muitos nutricionistas e médicos torcem o nariz para o vinho, tratando-o  como outra bebida alcoólica qualquer, desprezando até mesmo as vantagens para a saúde que, comprovadamente, podem ser obtidas com o uso moderado desta bebida. Outros propõem o suco de uva como alternativa, esquecendo-se do prazer sensorial que pode ser proporcionado pelos vinhos de qualidade, necessariamente alcoólicos, além de toda a história cultural e literária que os acompanham.

            O maior empecilho, principalmente em países como o Brasil, não é, como pensam alguns, o clima tropical. É possível adaptar o consumo moderado de vinho até mesmo ao clima amazônico, mas não há como evitar que um vinho de razoável qualidade alcance preços proibitivos para a maioria da população. No entanto, se o consumo aumentasse os preços tenderiam a cair, como de resto acontece em países vizinhos como a Argentina e o Chile.

            Qualquer campanha que recomende o uso moderado de bebidas não atingirá o seu objetivo se omitir o fato de que é preciso refletir sobre o relacionamento entre os cidadãos, cada vez mais frio e distante, cada vez mais mediado pelo uso e abuso de tecnologias que constituem um convite à solidão, sobretudo nos ambientes urbanos. Não há diálogo, principalmente entre os jovens e os educadores, sejam eles os profissionais da escola, sejam eles os próprios pais. Também não há diálogos consistentes entre os próprios grupos de jovens. Não havendo conversa franca e prazerosa, não há como evitar a tentação das drogas para provocar momentos de euforia e de intenso prazer que substituem o contato com o mundo real, feito de direitos, de alguns privilégios e de prazeres fugazes, mas também de deveres e responsabilidades. 

            Enfim, não acredito que se possa hipocritamente propor moderação quando os relacionamentos sociais convidam à exasperação e ao excesso de ansiedade e de falsas expectativas, do mesmo modo que é difícil ou até impossível conter o consumismo (outro vício moderno gravíssimo) quando os cidadãos são cotidianamente bombardeados pela propaganda que invade os lares. 

            Concluindo: o uso responsável do vinho, associado a uma aproximação cultural dessa nobre bebida, convidando ao prazer que ele pode proporcionar, se acompanhado de moderação, certamente não será uma solução definitiva, mas pode ser o começo de uma mudança séria, com bons resultados em longo prazo.


Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.
Comentários
0 Comentários
0 comentários to “ O vinho como prevenção do abuso de álcool”

Postar um comentário


Seu comentário é sempre bem vindo!

Comente, opine, se expresse! este espaço é seu!

Comentário Anônimo, sem nome e email , não será publicado.

Se quiser fazer contato por email, utilize o Formulário para contato

Espero que tenha gostado do Site e que volte sempre!

addthis

Contato (13) 3821-6148

Manutenção de celulares - Técnico de Informática

20 Mega de Internet

20 Mega de Internet na Infovale

Empregos no Japão

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
 
Google+

Site Registro-SP

Site Registro-SP
Cotação da Banana
Cotação da Banana
22 a 29 de maio

WhatsApp do Site

WhatsApp do Site
Autor
Facebook
Recomende-nos no Google

APP Notícias do Site

APP Notícias do Site

TV Ilha Comprida

TV Ilha Comprida

Receitas do Vale

Receitas do Vale

Sites Oficiais


Eventos Acer (RBBC)

Eventos Acer (RBBC)

Quadrinhos Registro da Colônia Japonesa

Quadrinhos Registro da Colônia Japonesa

O Vale do Ribeira Copyright © 2011 | Design by: [ Camilo Aparecido Almeida ] | Movido a: [ Blogger ]