5 de setembro de 2016

O Jazz e a Heroína

,
 Born To be Blue


Eli Vagner F. Rodrigues

Quando Charlie Parker morreu, em 12 de março de 1955, aos 34 anos, o médico legista testemunhou que seu corpo parecia o de um homem de 65, resultado de sua adição em heroína. Quando Chet Baker caiu da janela de um hotel em Amsterdam em 13 de maio de 1988, aos 58 anos, seu corpo aparentava ser de um homem de 80 anos, efeito da mesma devastação provocada por essa que foi a droga mais associada à história do Jazz.

Um capítulo significativo dessa história é contada pelo filme Born To be Blue (EUA, 2016) de Robert Budreau. O longa metragem retrata o esforço de Chet Baker nas diversas tentativas de recuperar o que a heroína foi lhe tirando ao longo dos anos. A lógica desse processo de decadência física e produtiva é conhecida e incluem aspectos que vão desde o processo natural de degeneração às feridas causadas pelo convívio no submundo do crime. O caso de Chet Baker tem marcas que se tornaram famosas na crônica musical do jazz. Um desses momentos de degradação é retratado na primeira metade do filme e trata da tentativa de Chet Baker de recuperar a “embocadura” (técnica fundamental para a prática do trompete que consiste em posicionar com pressão e posição específica e soprar corretamente o instrumento que requer, obviamente, o apoio dos dentes frontais), depois de ter perdido um dos dentes (incisivo central) ao ser surrado por um traficante.

Chet Baker não foi um músico dotado de uma veia criativa comparável a nomes como Miles Davis, Charlie Parker, Louis Armstrong, seus ídolos. Tampouco era um virtuose como Dizzie Guliespie ou Wynton Marsallis, para ficarmos no ambiente do trompete. Seu nome não figura como peça fundamental de nenhum movimento na história do Jazz. O ambiente artístico de Chet Baker era baseado muito mais na aposta em uma postura interpretativa, na opção por baladas, certa indolência na voz fraca, e, sobretudo, na própria ousadia de cantar alguns standards. O resultado dessa combinação, no entanto, foi reconhecidamente marcante. Suas interpretações deixavam uma aura de melancolia e desprendimento que forjaram o que genericamente se caracteriza como cool jazz, designação, talvez, mais de uma postura em relação à interpretação e ao próprio estilo de vida, do que propriamente de uma vertente específica do gênero.

Budreau consegue extrair, das inúmeras tentativas de Chet Baker de sair dos ciclos do vício, o elemento necessário para que o público acompanhe sua história com interesse e empatia. A fragilidade do artista frente aos desafios quase intransponíveis de um adicto em heroína se sobrepõem à imagem do artista como uma estrela da música. O diretor encontrou o nexo entre a natureza trágica de sua vida e sua perspectiva musical. A melancolia que Chet Baker expressa em suas interpretações não poderia ser mais autêntica. O lamento de canções como Autum Leaves, My Funny Valentine, giram em torno de objetivos não alcançados no amor, na vida, na carreira. Obviamente estes temas são universais, no entanto, se acentuam em naturezas trágicas e em personalidades limítrofes como a de Chet Baker.           

Born to be Blue proporciona uma ótima introdução ao universo sonoro de Chet Baker, sobretudo porque Robert Budreau soube escolher muito bem o repertório melancólico do filme e não poupou o artista do aspecto decadente sem o qual não se poderia retratar sua história. Uma piada de mau gosto do mundo do jazz não faz jus ao talento de Chet Baker mas representa bem os efeitos da heroína sobre a face do artista. Quando iniciou sua carreira Chet Baker era chamado de James Dean do Jazz, quando morreu, aos 58 anos, parecia Jack Palance.

Eli Vagner F. Rodrigues é Professor de Filosofia e Ética da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.
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