2 de setembro de 2016

O “fatiamento” e o homem cordial brasileiro

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O “fatiamento” e o homem cordial brasileiro


Sérgio Mauro

Os desdobramentos do chamado “fatiamento”, pelo qual Dilma Rousseff foi definitivamente afastada do governo, sem perder os seus direitos políticos, já começam a botar as manguinhas de fora. Todos processam todos, após um legítimo impeachment (legítimo por ser previsto pela Constituição e por ter sido decidido por ampla maioria, tanto na Câmara como no Senado), e até mesmo a família real resolveu envolver-se na interminável novela, enquanto o país alcança uma taxa histórica de altíssimo desemprego e o salário médio despenca. Qual é a explicação para o gesto inédito num processo de impeachment que afastou o presidente e ao mesmo tempo concedeu-lhe o privilégio de não ficar sem os seus direitos políticos? A resposta está provavelmente no discurso de Renan Calheiros que, apelando para o bom coração, afirmou: “não vamos ser maus” (na verdade, ele disse mau, mas aproveito a deixa para corrigir o seu “lapso” gramatical!). O que Renan disse, porém, precisa ser analisado à luz das características gerais de um país e de um povo tão complexos, que constitui uma colcha de retalhos em que, além do lirismo, herdamos também a “sífilis” lusitana, é claro, para recordar os versos da famosa canção de Chico Buarque.

Por falar em Chico Buarque que, por sinal, não deve estar nem um pouco contente com o resultado da votação no Senado, é preciso lembrar a tantas vezes mal interpretada afirmação do pai dele, Sérgio Buarque de Holanda, segundo a qual o brasileiro é um povo “cordial”. Ora, até onde eu sei, o grande intelectual, que nos últimos anos de vida ironicamente se apresentava como “pai do Chico”, se referia à etimologia da palavra cordial que remete a coração, isto é, o brasileiro médio faz muito mais uso do coração do que da razão nas lidas do cotidiano (outra canção do Chico!).

Foi justamente isto que se verificou no estafante processo de impeachment de Dilma. Tanto na Câmara, em que o famigerado Cunha não poupou esforços na sua bem sucedida tentativa de vingança pessoal contra a ex-presidente, como no Senado, em que, agindo-se mais uma vez com o coração, e muito pouco com a razão, resolveu-se contrariar ou interpretar equivocadamente o que reza a Constituição, e manter os direitos políticos de um Chefe de Estado destituído por um processo legítimo.

Em que pesem as acusações de corrupção e de picaretagem contra deputados e senadores, os que insistem em falar em “golpe” esquecem que os congressistas e os senadores foram eleitos pelo povo, o mesmo que elegeu Dilma e o seu vice que agora assume, em meio a críticas e a previsíveis e inócuas badernas de radicais (ou de jovens querendo um pouquinho de “diversão”). No entanto, a legitimidade do processo foi parcialmente maculada por essa estapafúrdia decisão cordial, tomada no calor do momento, movida por um misto de repentino arrependimento, de piedade e de oportunismo político.

Por falar em baderna, a dos últimos dias nas ruas de São Paulo me fez lembrar de “Os sonhadores”, belíssimo filme de Bernardo Bertolucci sobre os protestos dos jovens em maio de 1968, nas ruas de Paris. No filme, as ações de um grupo de jovens burgueses (que, numa cena antológica, descobrem e “pilham” os bons vinhos da adega dos pais em férias), às voltas com protestos contra tudo e contra todos, são mostradas muito mais como uma festa regada à bebida e a sexo do que como uma tentativa de chamar a atenção para problemas realmente palpáveis e com caráter de urgência. Por outro lado, a atitude dos senadores que aprovaram o “fatiamento” lembra, porém, uma farsa, talvez uma “opera buffa”, em que, depois de muitas peripécias, de muitas bravatas, o coração prevaleceu sobre a razão e decidiu-se o que não precisava ser decidido, pois bastava cumprir o previsto pela Constituição.

Por falar em ópera, “tutto nel mondo è burla” (“tudo no mundo é burla”, isto é, tapeação, enganação), como afirma a personagem Falstaff, da ópera homônima de Verdi. Falstaff quis ser esperto e foi devidamente engambelado e ridicularizado pelas mulheres que ele desejava conquistar. Eu me sinto, e o mesmo posso dizer de boa parte do povo brasileiro, um pouco como Falstaff: acreditei “espertamente” no processo de impeachment como uma possibilidade de renovação do quadro político brasileiro, visando a uma maior estabilidade econômica, mas o que me foi oferecido pelos que fingiam ceder às minhas artes de sedução foi um pedaço de pizza requentado! Resumo da ópera: tudo continuará, mais ou menos, como antes.

Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.
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