15 de setembro de 2016

A teatralidade de Lula

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A teatralidade de Lula


Mais uma vez, ele chorou em público, e desta vez para se defender da enésima acusação que lhe fizeram. Não cabe aqui discutir a culpabilidade de Lula nesta longa seara de episódios de corrupção que assola o país desde que foi iniciada a Operação Lava-Jato e similares. 

Interessa-me, sobretudo, a análise das transformações por que passou a personagem Lula, que já pode ser considerado, para o bem ou para o mal, uma das figuras mais marcantes dos últimos 35 anos do quadro político brasileiro.

O último choro de Lula insere-se no extenso rol de prantos que perpassaram pelas notícias sobre os escândalos de favorecimentos ilícitos aos quais nós, passivos espectadores, nos acostumamos a assistir, como se estivéssemos acompanhando mais um daqueles intermináveis seriados que preenchem boa parte da programação da televisão paga. Há não muito tempo, não somente o governador de Minas, Pimentel, derramou lágrimas publicamente, negando o próprio envolvimento em atos ilícitos, mas também o deputado que anunciou o processo de cassação de Cunha, finalmente concluído, emocionou-se, deixando entrever algumas gotículas salinas.

Enfim, chora-se por vários motivos: por contentamento, quando se deve anunciar publicamente uma suposta “vitória” da democracia, ou por tristeza, quando alguém rebate supostas acusações feitas injustamente, despertando a raiva já latente nos que de antemão desconfiam da personalidade que pranteia, ou a indignação dos que sempre foram seus fãs de carteirinha ou adeptos de primeira instância. Lula, porém, já chorou publicamente quando se lembrou de sua infância pobre e de sua mãe sofrida, abandonada pelo marido, assim como frequentemente se emociona quando duvidam da sua honestidade. Em qual dos “dois” Lulas devemos acreditar? No que se diz “gente como a gente” e apela para o bom coração do brasileiro médio, ou no político honesto e acima de qualquer suspeita que ele diz ser?

Na verdade, custa-lhe reconhecer que traiu seus nobres propósitos de sindicalista hábil nas negociações com os patrões e dotado de retórica convincente num ambiente em que apenas o discurso direto, se possível recheado de palavrões e vulgaridades, consegue ter penetração, sem apelações para o discurso empolado e cheio de tergiversações dos políticos tradicionais. O poder corrompe e o pranto de Lula o denuncia, antes mesmo que ele seja definitivamente julgado.

No imenso e complexo teatro social em que vivemos, ao longo da vida nos cabem papéis diferenciados, que assumimos com menos ou mais consciência, reagindo mais ou menos emotivamente, arrancando dos espectadores, isto é, de todos que conosco convivem, gestos de ódio ou suspiros, risadas ou copiosas lágrimas. Lula não tem verdadeira consciência do papel que lhe coube assumir, após ter sido manipulado pelos que dele se serviram para pôr finalmente em prática um antigo projeto de poder. Dotado de astúcia quase instintiva, mas não de verdadeira cultura e inteligência, deixou-se levar pela onda dos acontecimentos que marcaram o nascimento do PT, partido que pouco a pouco foi absorvendo a consciência pesada de intelectuais inconformados com os próprios privilégios num país formado majoritariamente por analfabetos e descamisados. As suas lágrimas, tanto as do passado como as do presente, não o inocentam, mas ajudam a encenar perfeitamente mais um capítulo do triste seriado hollywoodiano em que ele se enfiou, quase involuntariamente, quase desconfiado daquele grupo de “estudantes” que antes eram vítimas da sua ojeriza, mas que aos poucos o fizeram vislumbrar um poder nunca antes sonhado.

Caro Lula, talvez a sua carreira política esteja chegando ao fim. Duvido que você seja finalmente condenado pelos supostos crimes que cometeu, tantos serão os recursos jurídicos e as brechas na lei que os seus advogados conseguirão encontrar. Pelo que sei, a sua esposa tem cidadania italiana e já planejou um dia ir morar na Itália. Espero que você realmente consiga transferir-se para o “bel paese” (depois de julgado e, evidentemente, inocentado). Uma vez lá, eu lhe aconselho iniciar outra carreira: a de figurante em qualquer ópera, sobretudo alguma “opera buffa”.

Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.
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