15 de agosto de 2016

Os jogos olímpicos e suas lições

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Os jogos olímpicos e suas lições


Susani Silveira Lemos França

Talvez pela primeira vez na história, o Brasil se despiu inteiramente para o mundo e este pôde observar de perto as cores de um exotismo que, de longe, parecia menos imperfeito. O glamour do outro absoluto deixou, então, de ser tão glamoroso, pois os riscos, as imperfeições, os desleixos, as escassezes, as insuficiências, os desconfortos a que a população brasileira está acostumada saíram do armário e estão sendo vistos e experimentados em escala planetária.

Não bastassem os constrangimentos, a divisão político-partidária do momento não nos permite refletir de forma madura sobre o estágio da nossa civilização – ou da “civilização carioca” recentemente inventada. Por trás de cada crítica ou elogio, as disputas hodiernas vêm frequentemente à tona, mas agora ornadas de uma e outra parte por um tal ufanismo, que, no quadro atual, é o único que não desune. O transe, pós-festa de abertura, levou a uma espécie de uníssono sobre nossa capacidade de fazer, como se o sucesso dos jogos olímpicos se reduzisse a uma festa de abertura. Mas a cada golpe, a cada mergulho, a cada jogada, salto, movimento ou tiro, um pouquinho de Brasil vem denunciando que nem só de discursos demagógicos, músicas e luzes se faz a imagem de um país.

Nem só de discursos emotivos, voluntaristas e de sinceridade pueril, isto é, sem nenhuma sustentação na prática – ao contrário do que recomendava Sêneca –, se afirma um país, como temos visto. As palavras em defesa da preservação do planeta na boca de povos que conseguiram despoluir suas capitais, preservar seus rios límpidos ou desenvolver energia limpa podem soar belas e pedagógicas. Mas as mesmas palavras, pronunciadas em um país cuja baía mais célebre se confunde com um esgoto a céu aberto ou cujo sonho de prosperidade – agora meio frustrado – até há pouco se confundia com a extração de combustível fóssil do subsolo marinho, pode parecer ilusionismo ou escamoteação.

Entre persistências e avanços, negativos e positivos, trazidos nos últimos tempos, as lições pululam. A vaia, que funcionara como grito de desabafo diante dos descalabros da política recente, foi institucionalizada como uma espécie de hino brasileiro. Se o hino e a bandeira nacionais pouquíssimas vezes subiram ou subirão ao pódio, pelo que já se pode deduzir, o hino do Brasil que ruidosamente se ouve é o da vaia desonrosa aos adversários, não apenas aos adversários dos times ou atletas nacionais, mas aos de todos aqueles que, por razões diversas, não têm chance de ganhar. Os vencedores, os atletas de mérito irrefutável, especialmente quando provenientes de países ricos, passaram a merecer desaprovação prévia. E os comentaristas constrangidos, eles próprios por vezes ruidosos e estimuladores de um ufanismo vão, precisam justificar que se trata da forma peculiar de manifestação do brasileiro.

Imaturidades de uma nação ainda jovem? Modos dos trópicos? Níveis civilizacionais diferentes? Se o contorcionismo fosse esporte em competição, teríamos medalha, sem dúvida. Mas o que esperar de um país em que a pauta das discussões é dada por políticos extremistas e caricatos? Políticos, da direita ou da esquerda – rótulos imprecisos hoje, mas ainda muito em moda –, que se digladiam na mídia em torno de questões circunscritas ou passadistas, mas que rapidamente tomam o lugar dos problemas que nos assolam há anos, como a educação, a saúde, a falta de capacidade de competir sem a criação de subterfúgios (conchavos, sectarismos, nichos ou guetos) e de pequenas farsas estatísticas, que ajudam a nos iludirmos sobre nós mesmos.

Mas num país que tem se mostrado bipolar, oscilando da euforia a um pessimismo às vezes irônico, às vezes lamurioso, outras vezes resignado, de que serve repisar nossas mazelas? Angústias de uns, negação de outros, desilusão de muitos, prazer dos que se arvoram terem sido premonitórios, mas desconforto de todos. Tudo isto, neste momento em que de alguma forma o mundo tomou conhecimento de que a poeira foi jogada debaixo do tapete, pode simplesmente passar, deixando-nos continuar na nossa toada. Mas talvez, tal como estamos assistindo na cena política, seja a hora de uma operação de autocrítica e enfrentamento, ou melhor, de tentar avançar um passo. Hora de abandonarmos nosso apego à identidade fundada na felicidade ou criatividade, ambas dependentes do improviso, para tentarmos sair do atoleiro. Diante do quadro, muito treinamento e dedicação serão necessários. Do erro é possível tirar um acerto, mas a disciplina vai ter de vencer a sorte.    

Susani Silveira Lemos França é Professora Livre-Docente em História Medieval da Unesp de Franca.
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