10 de agosto de 2016

Jargões e expressões do universo da arquitetura

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Jargões e expressões do universo da arquitetura


Adalberto da Silva Retto Jr.

Os jargões em geral, e principalmente na área da arquitetura e do urbanismo, denotam de forma peremptória a circulação das palavras, das ideias e dos homens que, em certa medida, encontram-se vinculados à origem das cidades e à troca efetiva entre um vocabulário ligado ao saber erudito ou científico e uma prática cotidiana. Sem dúvida, o uso de jargões denota a capacidade de conduzir o conhecimento em novas direções, transmitir fatos e ideias de maneira eficiente.

Porém, esses discursos processos atravessam o nascimento do urbanismo, e porque não dizer, o do mundo urbano instituído a partir de um grande êxodo rural que trouxe milhares de pessoas para as cidades. Isso em grande medida reforça um momento particular do Ocidente, no qual a Modernidade produz discursos e saberes que rompem com outros anteriores e com os produzidos nela própria, caracterizados pelo movimento que a si se impõem; um sentir-se no mundo, que apagando rastros passam a produzir outros processos de vigilância e disciplinamento sobre o humano, interferindo sobre sua relação com o tempo e com a existência, através de funções e normas, desejos e necessidades, produzindo sentidos sobre a ordem social, suas fronteiras e limites; alterando sensações sensoriais; transformando aquilo que Benjamin define como experiência.

Por exemplo:

Sem eira nem beira: quando utilizado, é um jargão que significa que determinado fulano não tem onde cair morto. Eira designa o terreno de terra batida ou cimento onde grãos ficam ao ar livre para secar e beira é a beirada da eira, assim, quando uma eira não tem beira, o vento leva os grãos e o proprietário fica sem nada. Já na região norte e nordeste do Brasil esse ditado tem o mesmo significado, todavia possui outra explicação: as antigas casas das pessoas ricas tinham um telhado triplo - a eira, a beira e a tribeira, como era chamada a parte mais alta do telhado e; os moradores mais pobres não tinham as mesmas condições para fazer tal telhado, construindo somente a tribeira, ficando assim, "sem eira nem beira".

Corredor polonês: essa expressão é comumente utilizada para denominar uma passagem estreita formada por duas fileiras de pessoas dispostas lado a lado e uma defronte à outra, com a intenção de castigar os que tenham de percorrê-la. A expressão faz referência à região transferida por parte da Alemanha para a Polônia, ao fim da Primeira Guerra Mundial, em virtude da assinatura do Tratado de Versalhes. O Corredor Polonês dividiu a Alemanha ao meio, isolando a Prússia Oriental do resto do país através de uma extensão de 150 quilômetros e de largura variável entre 30 a 80 quilômetros, permitindo aos poloneses a circulação livre em território alemão, bem como, possibilitando o acesso da Polônia ao Mar Báltico. A disputa pela região do Corredor Polonês provocou inúmeros atritos entre os dois países e em 1939, durante a invasão da Alemanha à Polônia, os poloneses foram encurralados pelos alemães, que posicionados dos dois lados do corredor, atiravam nos poloneses que estavam transitando-o.

Santa do pau oco: jargão que se refere à pessoa que se faz de boazinha, porém não é. Nos séculos 18 e 19, os contrabandistas de ouro em pó, de moedas e de pedras preciosas utilizavam estátuas de santos ocas, que eram “recheadas" com preciosidades roubadas e enviadas para Portugal.

Casa da mãe Joana: essa expressão alude a um lugar em que vale tudo, onde todo mundo pode entrar, mandar, uma espécie de grau zero de organização. A mulher que deu nome a tal casa era condessa de Provença e rainha de Nápoles (Itália). Joana viveu no século 14, levando uma vida cheia de confusões, e em 1347, aos 21 anos, regulamentou os bordéis da cidade de Avignon, onde vivia refugiada. Uma das normas do local dizia: "o lugar terá uma porta por onde todos possam entrar", assim, "Casa da mãe Joana" virou sinônimo de prostíbulo, de lugar onde impera a bagunça.

Empena cega: é um dito que designa a face externa de uma edificação sem abertura à iluminação, à ventilação e à insolação. O termo empena, em arquitetura, pode significar qualquer parede lateral de uma casa, especialmente a que se encontra na divisa do terreno.

Pé-direito: o de concreto. Sabe-se que a expressão é uma exclusividade brasileira e era usada por arquitetos e engenheiros no período colonial para designar as estacas de madeira que sustentavam as estruturas de uma construção. "O próprio sentido das duas palavras reforça essa hipótese: ‘pé’ também significa árvore e ‘direito’ pode figurar que algo está no prumo, em ângulo reto. Assim, como coloca o arquiteto Carlos Lemos, da Universidade de São Paulo (USP) e autor do Dicionário da Arquitetura Brasileira, com o passar do tempo, o espaço do teto ao chão, que por sua vez dependia do tamanho do apoio de madeira que sustentava a construção, começou a ser chamado de ‘pé-direito’. Outra interpretação comum a esse jargão é que ele pode ser um sinônimo para "altura certa", ou seja, no sistema de medidas, um "pé" é uma unidade que corresponde a 30,48 centímetros. Nesse caso, o "direito" seria usado no sentido de correto, indicando a medida usual do solo ao teto que predominava em uma determinada região.    

Adalberto da Silva Retto Jr. é pós-doutor em arquitetura e professor de Desenho Urbano e História do Urbanismo da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.
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