30 de agosto de 2016

Berlim 1936

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Berlim 1936
João Eduardo Hidalgo

A Olimpíada do Rio de Janeiro foi um grande evento não tenho dúvida, nela recordes foram batidos, antigos e novos atletas se destacaram e a cidade se apresentou para o mundo, através da plataforma olímpica. Datas redondas sempre dão motivo para comemorações, lembranças e comentários. A mais polêmica foi a comparação feita pelo racista francês (quase um pleonasmo) Renaud Lavillenie, com a Olimpíada de Berlim 1936, identificando-se ele, insosso e mediterrâneo, com a força da natureza que era o negro Jessie Owens (1913-1980). O saltador, certamente eleitor de Marine Le Pen, fingiu desculpar-se dias depois e disse que tinha visto um filme com a história de Owens recentemente e por isto fez a referência. O excelente filme nomeado é Raça (Race, 2016), filme canadense dirigido por Stephen Hopkins, que passou despercebido no circuito brasileiro, tendo ficado somente uma semana em cartaz em uma sala em São Paulo.

Aproveito para fazer uma homenagem ao cinema e a uma figura importante dentro dele, apesar de sua escolha pessoal, que possibilitou a existência de uma memória olímpica, que marcou todas as edições posteriores e a existência do filme Raça, que foi a diretora alemã Leni Riefenstahl (1902-2003). Se a imagem de Jesse Owens, e dos outros atletas que competiram em Berlim, está viva até hoje é graças a seu documentário, em duas partes, Olympia (1938). A atriz e diretora Leni Riefenstahl foi a maior figura dentro do cinema alemão durante o período nazista, que durou de 1933 a 1945. Inicialmente Leni era uma dançarina que acabou seguindo a profissão de atriz e participou de muitas produções entre 1925 e 1933, e a partir deste ano tornou-se diretora dentro do Ministério da Propaganda, chefiado por Joseph Goebbels (1897-1945) e logo foi promovida a protegida, e segundo alguns, amante de Adolf Hitler (1889-1945).

Em 1932 Leni estrelou e dirigiu o filme Das Blaue Licht (A luz azul), um filme que conta a história de uma figura mágica Junta (Leni), que vive em uma montanha em uma caverna de cristais. O filme teve uma primeira montagem feita pelo diretor de vários dos filmes de Leni, Arnold Fanck, que segundo conta Leni no documentário sobre a sua vida The Wonderful, Horrible Life of Leni Riefenstahl, de Ray Müller, de 1993, fragmentou seu filme em pequenas sequências. Ela achou o resultado muito ruim, mas disse que aprendeu com ele a montagem construtiva, onde uma imagem complementa a outra. Ela explica: uma mulher começa a abrir uma janela, um homem continua abrindo uma porta e finalmente uma velha aparece abrindo completamente outra janela. Seja com for ela tornou-se uma exímia montadora e a partir disto uma excelente diretora, que já sabia o que as imagens poderiam lhe dar, e esta habilidade chegou ao ápice em Olympia.

A luz azul lhe rendeu muito reconhecimento na Alemanha e no exterior, Charles Chaplin mandou-lhe um telegrama e expressou desejo de trabalhar com ela. Segundo ela conta nas suas memórias, nunca pretendeu ser uma figura ativa dentro do cinema que era feito então na Alemanha. Com Hitler no poder e tendo a garantia de poder trabalhar sem interferência rodou Triunfo da vontade (1935), registro da convenção do Partido Nazista de 1934 em Nuremberg. Uma consideração importante que ela faz nas suas memórias é a de que resolveu trazer para o documentário as técnicas de produção que o cinema de ficção já tinha desenvolvido. Pequenos veículos para as câmeras, trilhos para que elas pudessem fazer travelings e panorâmicas sem prejudicar a qualidade da imagem, câmeras em bicicleta, pendurada em torres, carregadas no ombro pelos operadores. Ela deu mobilidade à câmera e já rodou pensando no que poderia conseguir. Um dos truques que usou foi criar um pequeno elevador que acompanhava uma das três bandeiras que ficavam atrás da tribuna principal, com isto conseguiu imagens aéreas (bird eye) nunca vistas antes. Este documentário marcou a história do gênero e 90 por cento das imagens de desfiles, discursos e manifestações do nazismo que conhecemos hoje vem desta obra. Ela é assustadoramente imprescindível para entender o século XX.

Com o sucesso de Triunfo da vontade Leni teve uma nova tarefa, registrar a XI edição dos Jogos Olímpicos que seria realizada pela primeira vez na Alemanha; o país iria sediar os jogos em 1916 (na mesma Berlim), mas eles foram cancelados por causa da Primeira Guerra Mundial. Tendo a aprovação do Führer ela conseguiu 35 câmeras, com respectivos operadores, que eram de vários tamanhos, portáteis, submarinas, algumas fotografavam 30 quadros por segundos (o normal no cinema é 24 quadros) e algumas eram presas em balões que depois eram recuperados, eram levadas em bicicleta, cavalo e por alguns atletas, e ela fez valas no chão para ficar no nível do solo entre outros procedimentos. O resultado de tudo isto foi tão magnífico que Leni teve dois anos e quatro milhões de Marcos para terminar seu filme, que foi apresentado na Feira Internacional de Paris em 1938, obtendo um sucesso instantâneo. Ela contou que tinha um original método de montagem desenvolvido para Olympia, que se compunha de tarjas com 12 cores, que identificam o conteúdo das películas, a mais alta qualidade ganha a cor vermelha (master) e a mais baixa preto (arquivo). Foi necessário criar o sistema, pois quando terminou as gravações da Olimpíada de 1936, tinha 400 mil metros de filme para usar na montagem; só para assistir todo o material Leni levou 10 semanas, trabalhando 10 horas diárias e foram necessários dois anos para completar a edição. Ela conhecia os filmes fundamentais para a linguagem cinematográfica, sabia o que tinham feito de eficiente, era admiradora e amiga de Walter Ruttmann, diretor de Berlim – sinfônia da metrópole (1927), ficou atordoada com Encouraçado Potemkim (1925) e Outubro (1927) de Eisenstein e desejava fazer o mesmo uso ágil das câmeras de Abel Gance em Napoleon (1927). Quando assistimos Olympia vemos a ligação direta do herói grego com o alemão teutônico, que depois se mescla com Jesse Owens, com Luz Long (Alemanha, salto em distância), Gisela Mauermayer (Alemanha, arremesso de disco), Son Kitei (Japão, maratona), Ibolya Csak (Hungria, salto em altura), Erle Meadows (Estados Unidos, salto com vara), Trebisonda Valla (Itália, 80 metros com barreira), John Lovelock (Nova Zelândia, 1500 metros), eles correm como o vento, arremessam objetos a uma distância enorme e voam como seres superiores que são. Com uma sutileza incrível Leni mostra que a raça não define ninguém, ela é uma circunstância, Hitler e Goebbels não perceberam.

Da mesma maneira o filme Raça de Stephen Hopkins mostra que a raça é um rótulo que recebemos ao nascer, o talento e a habilidade para dedicar-se a uma atividade é pessoal e pressupõe algo maior: caráter. O elenco negro encabeçado por Stephen James (Owens) e Shanice Banton (Ruth Solomon, mulher de Owens) é talentosíssimo e são todos canadenses, um mito de procedência de raças destruído. E mais, Carice Van Houtem, atriz holandesa faz a alemã Leni, e o ator alemão Barnaby Metschurat faz um Goebbels sem ser caricato, destacando a banalidade e a irracionalidade do racismo e da maldade. Sobre racismo recentemente foi descoberto e divulgado um fato, a mulher de Goebbels, Magda Behrend, era na verdade filha de um judeu, o industrial Richard Friedlaender, que teve relações com sua mãe antes dela se casar com Oskar Ritschel, que serviu de pretenso pai para Magda, até agora. Cabe lembrar que a mãe de Magda, Auguste Berherend divorciou-se de Oskar Ritschel anos depois e voltou a casar-se com o judeu Richard Friedlaender. A mulher apresentada por Hitler como a mãe ariana símbolo da Alemanha era uma judia. Indo além alguns correligionários afirmaram que ele poderia ser pai de algum dos seus seis filhos, um golpe histórico final na insana teoria da superioridade das raças nazista.

Quando o atleta recordista de salto com vara atuou no Brasil, o mequetrefe Lavillenie, e se comparou a Owens cometeu dois erros crassos. Jesse Owens foi incentivado pelo público que estava no estádio que gritava “USA, USA”, torcendo por ele, que não era o recordista da prova (salto em distância), o campeão era Luz Long, alemão detentor do recorde, sete metros e cinquenta e quatro centímetros. E o segundo, quando Owens confundiu-se e queimou o salto, Long foi ajudá-lo a lembrar do limite da distância. Luz Long teve espírito esportivo, que faltou fragorosamente em Lavillenie, sem falar de humildade e fraternidade que ele também não teve com Thiago Braz.

Terminada a Olimpíada sugiro um programa para todos, amantes dos esportes ou não, assistir primeiro Olympia e depois Raça, além de entretenimento estas duas obras fundamentais ensinam a sermos humanos, a aprender com nossos erros e acreditar no aperfeiçoamento da humanidade, é o espírito olímpico pleno.

João Eduardo Hidalgo é Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo e pela Universidad Complutense de Madrid. Professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp, Bauru.
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