23 de agosto de 2016

As quatro raízes do espírito olímpico

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As quatro raízes do espírito olímpico


Paulo Henrique Aguiar Magnani

Formado em Administração Pública pela Unesp de Araraquara, sou um voluntário nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016. Após me inscrever três anos atrás no programa para voluntários e fazer diversos testes de idiomas, dinâmicas e treinamentos, fui chamado para atuar como Assistente de CON (Comitê Olímpico Nacional), e fui designado para trabalhar por 30 dias com outros 6 assistentes voluntários (de 4 países diferentes) dando apoio à Delegação do Egito. Trabalhamos dentro da Vila Olímpica direto com o chefe da delegação e todo seu grupo de líderes a administradores que fazem parte da delegação junto aos atletas. Nossos serviços incluíram fazer vistoria em todos os apartamentos deles para garantir que toda parte estrutural e também os móveis estivessem adequados para recebê-los, e posteriormente ter contato com o pessoal da limpeza e manutenção diariamente para nos certificar que seus quartos estivessem limpos e sem problemas. Nosso serviço também envolve cuidar de toda a logística relacionada aos 6 carros com motoristas destinados ao Egito que são usados diariamente para buscar e levar pessoas ao aeroporto, aos hotéis e à Vila, para levá-los aos diversos locais de competição e também para fazer compras ou conhecer lugares turísticos. Com isso, organizamos viagens, contratamos serviços e os guiamos na cidade do Rio de Janeiro, realizando constantemente um serviço de tradução Inglês/Português e orientando-os quanto a quaisquer dúvidas relacionadas à cidade ou aos jogos.

São muitos os privilégios e os desafios que passamos aqui como voluntários. É uma grande oportunidade poder contribuir com meu trabalho para a realização do maior evento esportivo do planeta, ver como tudo funciona por trás das câmeras, conviver diretamente com as delegações dentro da Vila Olímpica, ver diariamente atletas famosos passeando e se exercitando na Vila e às vezes bater um papo com eles, poder acompanhar minha delegação em vários jogos e assistir diversas modalidades de lugares privilegiados, me comunicar em inglês todos os dias, todo o tempo com pessoas de diversas partes do mundo, poder conhecer e fazer amizades com pessoas de diversos países, ouvir um jovem voluntário russo me contar sua versão da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria, e outro jovem árabe me dar sua visão sobre o Estado Islâmico e o 11 de Setembro, não tem preço, é muito bom. O desafio está em apesar de ser voluntário, ter comprometimento para trabalhar às vezes 13, 15 horas em um dia e levantar na manhã seguinte para voltar ao trabalho, deixar às vezes de almoçar ou jantar para dar conta do serviço e ainda ter humildade para ouvir pessoas nervosas gritando com você, te dando ordens ou te minimizando, e ainda assim conseguir pedir desculpas pelos erros dos outros, respirar fundo, pensar em desistir, esperar, sorrir e pensar que o Espírito Olímpico é muito maior do que isso tudo. Não existe Olimpíada sem voluntários. Quanto mais eu trabalho e vejo meus amigos trabalharem, mais claro fica para mim que nenhuma olimpíada seria possível sem nosso serviço dedicado. São 50 mil voluntários de mais de 100 países que mostram ao mundo todo que nosso tempo, nossas decisões e esforços não precisam ser regidos pelo dinheiro. Esta, em minha opinião, uma das raízes do Espírito Olímpico.

O planeta está dentro da Vila Olímpica. É maravilhoso estar em um lugar onde apesar das diferenças de cultura, língua, cor, gênero, religião, política e outras mais, todos convivem em harmonia e em paz, é como o planeta deveria ser. A princípio, para mim, veio um deslumbre de encontrar jogadores da NBA, de ver atletas como Novak Djokovic, Usain Bolt e Paul Gasol. Com o tempo, tudo começou a ficar normal, parte do meu trabalho e da rotina, como um dia que passei pelos jogadores de vôlei do Brasil, desejei um bom jogo e segui em frente. Então certo dia, observando todos aqueles prédios das diversas delegações com suas cores e bandeiras, lembrei-me dos tempos de escola, onde competíamos com outras salas e séries, lembrei-me da rixa entre os alunos da 5º A contra a 5º B, das músicas que cantávamos para provocar uns aos outros, do hino que criamos para nossa turma, como achava-mos que o pessoal da outra turma era diferente de nós, e como queríamos vencê-los nos jogos escolares. Neste momento, observando a Vila Olímpica, tudo ficou tão mais simples para mim, o que eu estava vivendo não era muito diferente do que quando eu estava na 5º série, vendo tantos homens e mulheres competindo com suas cores e hinos criados por eles mesmos, tive este forte sentimento de que no final das contas, ainda somos todos da mesma escola. Meu deslumbre se foi, o Paul Gasol passou a ser somente o Paul Gasol, e o Djokovic era somente o Djokovic, atletas muito bons em alguns aspectos, mas pessoas comuns como todos nós. O russo, o americano, o tunisiano, o senegalês e o argentino, eu passei a ver como meus irmãos, e de repente eu vi que o mundo é um só, que somos nós quem criamos as barreiras. Concluí que quando achamos que uma pessoa de certa nacionalidade é superior ou inferior a nós, estamos apenas refletindo aquela visão infantil de quando estávamos na quinta série. Somos todos iguais, acho que esta é outra raiz do Espírito Olímpico.

Ao observar as competições, percebi como a mídia tem seu foco naqueles que são medalhistas, busca-se criar ídolos, parece que o ser humano está sempre querendo criar novos deuses para adorar, pois crê-se que são estes que trazem as pessoas aos estádios ou à TV. Percebi, entretanto, que todos os atletas que vêm para cá são vencedores, que a verdadeira competição é com eles mesmos, em superar seus próprios recordes e limites, muitos saem do Rio com uma história incrível de superação e sacrifício pessoal, mas por não terem uma medalha no peito, acabam anônimos. Esta superação de cada indivíduo é mais uma raiz do Espírito Olímpico.

Ler críticas ao Brasil nos jornais era normal para mim, mas geralmente eu estava do lado daqueles que jogavam a pedra. Nestas olimpíadas, enquanto muitos falavam mal do evento, eu tive a oportunidade de realmente fazer algo de bom para nosso país. Enquanto eu via nos jornais as críticas em relação à má organização dos jogos incluindo a Vila Olímpica dos Atletas, com problemas nas estruturas dos apartamentos, eu e meus amigos trabalhávamos duro para arrumar tais problemas e receber da melhor maneira possível cada egípcio que chegava ao Brasil. Quando eu assisti a abertura dos jogos no Maracanã, onde mostramos ao mundo tantas coisas boas que temos em nossa cultura, música, ciências, artes, esportes, com todo nosso calor humano, eu me emocionei muito, pois mostrar a todos os nossos irmãos de outras nações o que nós temos de bom na nossa nação, e dizer ao mundo - vocês todos são bem-vindos! é mais uma raiz do grande Espírito Olímpico.

Muitos já me questionaram o porquê de eu ter decidido trabalhar “de graça”, achando que eu era tolo por trabalhar sem ganhar dinheiro. É realmente triste ver pessoas que não conseguem achar outros propósitos no trabalho que não o financeiro. A experiência de vida que tenho tido, os amigos que tenho feito, a contribuição que pude dar ao meu país, ao Egito e a diversos indivíduos diariamente, a alegria de servir sem esperar algo em troca, de se sentir realmente útil em algo significativo, de superar o orgulho e o cansaço, de ouvir e aprender com a experiência dos outros, de viver uma Olimpíada de dentro e sentir o Espírito Olímpico em sua essência, tem mais valor do que qualquer moeda deste mundo. Apesar de ser formado em ADM Pública, trabalho hoje como professor e tradutor de inglês. Alguns acham que fiz minha faculdade à toa pois não trabalho na área. Minha conclusão disso tudo é que não deveríamos fazemos faculdade apenas para conseguir emprego, e nem deveríamos buscar emprego somente para conseguir dinheiro. É muito melhor estudar com o foco em desenvolver nossos talentos e conhecimentos e, por fim, trabalhar para conseguir contribuir com a sociedade e com o mundo em que vivemos através do nosso serviço dedicado e honesto. Que a luz de cada voluntário mostre ao mundo que o serviço está muito além do ganho financeiro, que os atletas mostrem ao mundo que a verdadeira superação está em vencer a si mesmo e não aos demais, que a Vila Olímpica mostre que no fundo somos todos iguais e irmãos de uma única família humana, e que o Rio mostre ao mundo que temos muito de bom aqui e que estaremos sempre abertos para receber nossos irmãos que vem de fora.

Paulo Henrique Aguiar Magnani é administrador público pela Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara e voluntário nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016. Atua como tradutor, intérprete e professor de Inglês e Espanhol. Contato: paulohmagnani@gmail.com 
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