5 de julho de 2016

O relativo fracasso da FLIP

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O relativo fracasso da FLIP


Sérgio Mauro

Sempre desconfiei de feiras literárias. O próprio termo feira, na minha memória pessoal, sempre esteve associado ao caos, a vozes confusas que vendem frutas ou peixes, doces ou verduras. No caso da feira literária de Parati de 2016, os produtos expostos e presumivelmente à venda eram livros, mas a confusão, a julgar pelas notícias dos jornais, foi semelhante a das feiras paulistanas da minha infância.

Realmente deve ter sido constrangedor o debate com o escritor sírio, vaiado por se recusar a discutir a guerra civil em seu país, mas ainda mais inconveniente foi o protesto contra Temer (ou contra o impeachment de Dilma?) do escritor João Paulo Cuenca. Não cabiam numa feira literária as vaias contra o escritor, tampouco o protesto político totalmente fora de contexto de João Paulo.

Tanto as vaias como o protesto político descontextualizado vão de encontro ao que deveria ser uma saudável discussão literária. Quem vaiou o escritor sírio demonstrou intolerância, pois me parece justamente que Abu Said preferiria ter discutido aspectos da sua obra a ter de debater uma situação conflituosa que ele e seu povo vivenciam na pele. O seu desabafo, portanto, soou compreensível e chamou a atenção para o desnorteamento que deve ter perpassado por boa parte dos debates literários da Flip. Os discursos contra o atual governo (mesmo que a leitura de Lima Barreto pudesse eventualmente remeter para os males que afligem o Brasil e, eventualmente, para uma situação semelhante a que estamos experimentando) extrapolaram os limites de uma exposição de livros e ideias literárias. Foi democrático à medida que, dentro dos limites de convivência civilizada, cada cidadão pode exprimir em voz alta e publicamente a sua própria opinião política, mas soou forçado e incompreensível, pois pretendia contar com a unanimidade dos presentes à feira no que diz respeito ao apoio à ex-presidente, ou, na melhor das hipóteses, demonstrar que o texto de Lima Barreto poderia, suponhamos, alicerçar a tese de golpismo defendida por parte dos literatos brasileiros atualmente. Se assim fosse, então alguém deveria ter lido em seguida algumas crônicas ou passagens de romances e contos machadianos, para demonstrar uma tese contrária.

Em Os limites da interpretação, Umberto Eco, com a clareza e a argúcia que lhe eram peculiares, alertou sobre o perigo de querer a todo custo enxergar na obra literária aquilo que lá não está, partindo de uma crença religiosa ou de uma convicção ideológica pré-concebida. Talvez não tenha sido essa a intenção dos que demonstraram, de maneiras pouco condizentes com o saudável debate público, desacordo com o posicionamento do escritor sírio, ou do escritor que se aproveitou da leitura de Lima Barreto para expressar o seu descontentamento com o governo provisório de Michel Temer, mas é triste constatar que tais atitudes vêm se repetindo com certa constância nos meios acadêmicos e literários. Há os que literalmente se apoderam de um escritor ou de uma corrente literária para demonstração, por exemplo, da suposta misoginia ou da homofobia de escritores clássicos, ou do reacionarismo e do conservadorismo retrógrado de “monstros” da literatura, brasileira ou não.

Lembro-me de um professor de literatura brasileira da minha adolescência que chegou a definir Machado de Assis como “carreirista”, lambe-botas de Dom Pedro II e por aí afora. Tal professor, naturalmente, nutria grande admiração por Lima Barreto, estabelecendo uma contraposição que, já na época, pareceu-me forçada e inadequada. Este tipo de colocação não somente deveria passar longe de qualquer ambiente que queira discutir seriamente literatura, com também denota ausência total de observação crítica.

Tais instrumentalizações de escritores e períodos literários, se não me engano, surgiram nos Estados Unidos, principalmente a partir dos anos 70. Se na sociedade americana, muito diferente da nossa no que diz respeito ao modo como concebe um debate intelectual público, tal modismo já é bastante pernicioso e prejudicial para a discussão literária séria, é de se supor que no Brasil, ainda imaturo, política e culturalmente, os estragos produzidos possam ser ainda maiores. Espero que a próxima Flip ou outras feiras literárias semelhantes voltem a discutir a universalidade e a profundidade dos grandes escritores, e que as instrumentalizações políticas fora de contexto procurem outros espaços mais adequados para as suas exteriorizações.

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