15 de julho de 2016

O atentado de Nice e Garibaldi

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O atentado de Nice e Garibaldi

Sérgio Mauro

Talvez os terroristas (ou militantes extremistas, para contentar gregos e troianos) radicais árabes, ou quem quer que esteja por trás do mais recente atentado na França, não saibam, mas acabaram atingindo não apenas um país que comemorou em 14 de julho de 2016 os 227 anos da Queda da Bastilha, símbolo da ascensão da burguesia francesa em 1789 e que, com todas as suas imperfeições e ajustes ainda necessários, constitui o evento histórico que marcou o início do que chamamos de democracia moderna, como também a cidade em que, em 1807, nasceu Giuseppe Garibaldi, o “herói dos dois mundos”, um dos artífices do longo e complicado processo de Unificação da Itália, além de personificação do herói romântico, disposto a dar a vida por uma causa, por um ideal de liberdade.

É curioso notar, portanto, que indiretamente, sem que, provavelmente, os terroristas tivessem a mínima consciência do que estavam fazendo, o atentado de ontem à tarde atingiu duramente tanto a já frágil e combalida democracia ocidental, graças à qual só é possível prender um suspeito depois que ele cometer algo fora da lei (e, no caso, o facínora morreu após concluir o seu ato insano), como o berço de um dos maiores símbolos de herói galanteador e combatente pela liberdade do século XIX. É provável, porém, que nem mesmo a imprensa italiana faça uma menção a Nice como a terra de Garibaldi, pois a cidade pertence à França desde 1860.

Prefiro pensar, no entanto, que o atentado de 14/7 foi a pá de cal que ainda restava jogar nos abandonados ideais garibaldinos de liberdade. Para os terroristas, tanto faz se Nice foi ou não o berço de um grande patriota, porque o que está em jogo é um plano de vingança contra as ações francesas contra os radicais árabes, mas o que me passou pela cabeça assim que tomei conhecimento dos fatos foi antes de tudo a figura lendária de Garibaldi.

Não há nada de novo e que mereça novas análises neste enésimo atentado. No entanto, o fato de que tenha sido cometido com o uso de um enorme caminhão e que até agora não se saiba a identidade do motorista me fez lembrar o filme Encurralado, de Steven Spielberg, em que o protagonista é perseguido por um caminhão e não consegue saber nem por quem, nem por que está sendo seguido. Ontem, porém, os objetivos mais uma vez foram bem claros. Quem arquitetou o plano não escolheu por acaso o 14 de julho e, mais uma vez, os serviços de inteligência franceses não foram capazes nem de prevenir, nem de atenuar os efeitos devastadores da ação dos terroristas. Os comentários feitos por Donald Trump, de que os franceses ainda não aprenderam a lição, devem ter sido seguidos de acenos de aprovação com a cabeça de muitos telespectadores mundo afora. Bomba neles parece dizer Trump, lembrando a figura ridicularizada do general que, desde o inicio, desconfia da “bondade” dos marcianos e quer a todo custo eliminá-lo na brilhante comédia “Marte contra-ataca” de Tim Burton.

A única lição que mais uma vez podemos tirar desses tristes episódios de barbárie é que não adianta apenas prender ou eliminar os supostos líderes extremistas islâmicos (ou outros extremistas). Os chefes mafiosos na Itália foram quase todos presos ou mortos, mas a Máfia não acabou. Muitos traficantes ou líderes de facções criminosas no Brasil já estão presos, mas o PCC continua atuando, como aconteceu na verdadeira operação de guerrilha em Ribeirão Preto, há poucos dias. Muito mais eficaz seria repensar a combalida ação da ONU no mundo, sempre em cima do muro quando se trata de mexer na ferida dos americanos ou nas atitudes radicais de Israel. Mais eficaz, porém, com o perdão do neologismo, seria a “desradicalização” de corações e mentes no mundo inteiro. Trata-se de uma missão extremamente complexa, e que esbarraria no devido respeito por culturas e religiões diferentes das nossas, isto é, que se chocam com valores eminentemente ocidentais. De resto, quantas vezes tais valores, que todos nós hoje afirmamos defender, não foram transgredidos, ao longo do século XX e também no início do XXI em nome de uma lógica de Estado, supostamente destinada a defender valores democráticos?

Se for verdade, como afirmam tantas pessoas com inegável autoridade intelectual, que não há nem no Corão, nem na cultura árabe a apologia da violência e do irracionalismo, é também verdade que a lógica dos homens-bomba que cometem tais atentados está fundamentada sobre uma noção de matriz religiosa, pela qual quem morre em nome da causa islâmica vai diretamente para o Paraíso. Na Idade Média europeia não era muito diferente. Basta pensar que Dante, na Divina Comédia, coloca no Paraíso o seu antepassado Cacciaguida, herói das cruzadas que morreu provavelmente em combate. Cacciaguida era, para o poeta, um mártir da fé (cristã), assim como o motorista do caminhão de Nice foi, para os extremistas islâmicos, um mártir da crença, só que islâmica. É essa lógica, associada a uma visão que ainda contrapõe cristãos a não cristãos, capitalistas a comunistas, petistas a coxinhas, que é preciso desmontar, como única forma de debelar os muitos radicalismos que percorrem o mundo.

Tristemente, resta concluir que tanto o azul da bandeira francesa como o vermelho das camisas garibaldinas (e da bandeira italiana) foram ontem manchados de sangue. Até quando? Por quê?


Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.
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