4 de julho de 2016

Mais humildade e menos beligerância

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Mais humildade e menos beligerância


João Manuel Marques Cordeiro  

Nesta última terça-feira o mundo assistiu, mais uma vez, à morte e vitimização de dezenas de inocentes na Turquia. Ainda que uma parte, ou grande parte das pessoas de todo mundo achem que esses atentados se devem meramente aos desvarios de um bando de fanáticos sanguinários, que querem aniquilar da superfície do planeta todos os que não comunguem das suas crenças religiosas, a verdade é um pouco mais dura.

Muito do que está por detrás dessas ações se deve a erros e injustiças cometidos na história recente, notadamente depois da segunda guerra, pelos países do ocidente. Muito mais, ainda, pela negativa constante desses países em assumir sua responsabilidade na história, o que seria um passo no encaminhamento de ações que pudessem minimizar os problemas criados. É notória a dificuldade que o ocidente tem de lidar com seus fantasmas e um paralelo histórico pode ser interessante para a compreensão do problema.

Ninguém desconhece e a todos emociona, em maior ou menor grau, o massacre que foi perpetrado contra os judeus pelo regime nazista durante sua vigência na Alemanha, até ter sido derrubado pelos aliados, pondo fim à segunda guerra. Mas, de maneira geral, as pessoas comuns e os líderes dos países ocidentais se manifestam sobre a questão, como se fosse de única e exclusiva responsabilidade de Hitler, e ninguém mais tenha qualquer coisa a ver com o extermínio que foi perpetrado pelo regime alemão.

Porém, isso não é exatamente assim. Em primeiro lugar, o anti-semitismo era sentimento existente em outros países, com mais ou menos força, e alguns destes países viam com certa “simpatia” o que se desenrolava na Alemanha em consequência da política do Reich (pelo menos no início) e faziam “vistas grossas”, portanto.

Em segundo lugar, Hitler sempre manifestou que seu interesse era se livrar dos “seus” judeus, não necessariamente pelo caminho seguido. O que ele desejava era se ver livre deles. Em diversas ocasiões se pronunciou no sentido de que os países que os quisessem, teria “o maior prazer” em colocá-los à disposição. Não só consentia na emigração dos judeus, mas a apoiava. Quem lhes abriu as portas? Pelo contrário, as portas, já estreitas, se fecharam ainda mais.

Duas conferencias foram realizadas em diferentes alturas para discutir o acolhimento dos judeus vítimas da ideologia nazista: Évian, em 1938 e das Bermudas em 1943 (5 anos entre elas!). No primeiro caso, dos 33 países presentes, apenas Holanda e Dinamarca concordaram em flexibilizar as regras de imigração para facilitar o acolhimento de judeus. Outros países, Estados Unidos entre eles, não só reduziram as cotas de imigração como introduziram condições inalcançáveis para os que desejassem entrar no país (curiosamente (?) após a vitória dos aliados, alguns desses países acolheram fugitivos nazistas).

A segunda conferência pouco mais foi do que um passeio turístico pelas ilhas do Caribe. Terminada a guerra, os sobreviventes foram “internados” por anos, em campos para refugiados (a história se repete hoje), alguns dos quais os próprios de concentração onde haviam “vivido” durante o nazismo, em condições iguais ou piores do que as anteriores. Essa foi a ação dos que hoje parecem se mostrar indignados com o que aconteceu. São todos culpados! Culpados por omissão (para dizer o mínimo).

Para tentar “remediar” o mal-feito o ocidente criou outra tragédia, a do Oriente Médio. Pagaram (e pagam) os árabes por um produto que lhes foi empurrado goela abaixo e que permeia muito das dificuldades encontradas para que se instale a harmonia entre o ocidente e algumas das nações árabes. Nessa linha, e aqui se dá o paralelo que se quer fazer, é preciso ter em mente que grande parte dos problemas que se verificam atualmente no oriente médio e norte da África se deve ao redesenho feito pelos aliados do mapa do mundo ao fim da segunda guerra.

Povos historicamente inimigos foram forçados a viver sob as mesmas leis, como aconteceu na região do Cáucaso, e cujas consequências foram os genocídios perpetrados nas últimas décadas do século passado, e culturas milenares foram divididas e irmãos separados, como aconteceu no oriente médio, norte da África e nela como um todo. Além disso, os Estado Unidos, apoiados ou não por países da Europa, invadiram o Iraque e o Afeganistão por razões eminentemente de política interna, ainda que, hipocritamente, tenham justificado os fatos em razões humanitárias.

No caso do Iraque, inimigos do regime de Sadam Hussein foram armados na luta contra o ditador, mas depois não receberam o quinhão que provavelmente achavam justo na formulação do governo instalado com a saída dos americanos. No caso afegão, os Estados Unidos se aliaram a Osama bin Laden, na luta contra o regime apoiado pelos russos, mas depois se tornaram grandes inimigos em função dos desdobramentos da revolução.

Foram essas ações patrocinadas pelo ocidente que geraram uma série de frustrações e ressentimentos, de ódios e incertezas, que estão na raiz das catástrofes terroristas que temos presenciado. Assumir isso por parte do ocidente seria um passo no sentido de sanar alguns erros do passado. Um mea culpa de parte dos países ocidentais pode ser difícil, mas poderia ser um passo gigantesco para desarmar inimigos e trazer mais resultados positivos, do que todos esses discursos beligerantes que se ouvem dos governantes após cada novo atentado.

João Manuel Marques Cordeiro é professor da Unesp de Ilha Solteira.
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