8 de julho de 2016

A sociedade do ressentimento e oportunismo eleitoral nos EUA

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A sociedade do ressentimento e oportunismo eleitoral nos EUA

Fernanda Magnotta

Em meio a uma disputa eleitoral acirrada e marcada por discursos agressivos, a reação ao atentado ocorrido em Orlando, escancarou, nos Estados Unidos, a necessidade de falarmos sobre ressentimento, este problema de caráter psicológico que envenena a vida em sociedade e que parece explicar, de forma eficiente, parte da radicalização política a que temos assistido.

Desde que a corrida presidencial norte-americana começou, fomos bombardeados por ideias de isolamento. Como todos sabem, a construção de muros e a criminalização de imigrantes tomaram a pauta do debate público e fizeram de Donald Trump, que há alguns meses nem era levado a sério, um candidato possível.

Outra vez, o discurso duro (e carregado de ‘verdades absolutas’) apareceu, mesmo que não combinasse com a incerteza e a dúvida que são típicas de acontecimentos desta natureza. O que se viu, no calor do ocorrido, foi a espetacularização da tragédia e da dor, embebidas, à luz de Nietzsche, em um mar de angústia e rancor típicos de uma agressão que os indivíduos não são capazes de assimilar e à qual tampouco têm condições de reagir.

Ao manifestar-se sobre o tiroteio que matou cinquenta pessoas e que deixou feridas outras dezenas, Trump não hesitou em dizer que os Estados Unidos tinham sido atacados “por um terrorista islâmico radical”, ao mesmo tempo em que condenou Obama e Hillary Clinton por não terem usado termo equivalente. Disse que Omar Mateen, o atirador da Boate Pulse, era filho de um afegão simpatizante do Taleban e, na sequência, supondo um passo lógico, citou uma pesquisa da Pew Research Center, segundo a qual 99% das pessoas do Afeganistão apoiariam o que chamou de “Lei Sharia opressora”.
Trump não falou apenas por si. Metade dos estadunidenses afirma associar muçulmanos ao antiamericanismo e 76% deles afirmam que a discriminação contra praticantes do islamismo cresceu consideravelmente nos últimos anos, ainda que 47% assumam nunca ter tido contato com algum. Particularmente entre os republicanos, os números são ainda mais expressivos: 77% acreditam que novos imigrantes ameaçam os valores dos Estados Unidos e 77% creem que o Islã encoraja a violência.

A reação de Trump ao atentado de Orlando tenta blindar os Estados Unidos da fúria de seus próprios demônios sociais e dialoga diretamente com a insegurança de um público acostumado a pensar o maniqueísmo do ‘eu’ versus ‘o outro’. Assim, ao assumir como premissa a ideia de que “para nos manter seguros é preciso garantir que os demais fiquem de fora”, ele responde aos medos de uma sociedade acuada.

Duas ou três insinuações ainda pouco conclusivas (e inseridas num contexto de negação veemente de autoridades, conhecidos e familiares) foram suficientes para que parte considerável da mídia, do público e dos políticos tratasse do tiroteio como um ato óbvio do “Radical Islam”. Se for verdade, apenas o tempo dirá. Apesar disso, não deixa de ser curioso que outras questões urgentes e endógenas da sociedade norte-americana tenham sido relegadas a um segundo plano tão rapidamente, como a homofobia ou a cultura de armas.

O ressentimento nasce quando remoemos emoções, introjetamos impulsos e quando não digerimos ofensas. Impregnado da moral judaico cristã, ele dialoga com o sentimento de culpa e envolve mecanismos de defesa que buscam associar causas externas às frustrações que sentimos. Deriva da tentativa de justificarmos nossas fraquezas e fracassos a partir de um ‘mal que vem de fora’. As plataformas políticas que dele nascem, portanto, seguem a mesma lógica: defendem o direito à felicidade ao mesmo tempo em que terceirizam as responsabilidades que estão em jogo.

Fernanda Magnotta é professora e coordenadora do curso de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), mestre e doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas (UNESP / UNICAMP / PUC-SP).
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