12 de julho de 2016

A natureza dos atentados e chacinas que assolam os nossos tempos

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A natureza dos atentados e chacinas que assolam os nossos tempos

Sérgio Mauro

Os recentes atentados terroristas, nos Estados Unidos, com um saldo de cinquenta mortos, e na França, em que um policial e sua mulher foram brutalmente assassinados, nos levam, mais uma vez, à inevitável pergunta: até quando? Até quando os governantes dos países envolvidos vão continuar respondendo aos ataques com evasivas ou com a retórica vazia de quem, compreensivelmente, nada tem a dizer? O tom comedido de François Hollande, ao repudiar mais um atentado em seu país, contrastou com o de Barack Obama, que preferiu rejeitar as observações oportunistas do candidato à presidência dos EUA, Donald Trump, que, assim como já propôs a construção de um muro para impedir o acesso de mexicanos ao “paraíso prometido” americano, propõe agora que se impeça a entrada de árabes em solo ianque.

Donald Trump apenas reflete a opinião do americano médio, nacionalista, orgulhoso das conquistas militares do país e, quase sempre, bastante ignorante no que se refere às questões que envolvem outros países do mundo que não falam inglês. É claro que o intelectual ou o profissional nova-iorquino ou formado em Harvard prefira provavelmente votar em Hillary Clinton, mas não se pode negar que as medidas “fortes” e nada politicamente corretas propostas por Trump seduzem boa parte do americano do interior, sempre às voltas com os inimigos da liberdade americana. Outrora eram os comunistas russos ou cubanos, agora são os inimigos árabes que atacam em solo americano com inaudita ferocidade.

Todas as vezes que ocorre um atentado terrorista ou um crime bárbaro como, por exemplo, o estupro coletivo no Rio, que já pertence às manchetes internacionais, o clamor popular exige punições exemplares e rigorosas. Nada mais compreensível, sobretudo para quem perde um amigo ou um parente próximo nesses atos violentos em que um homem ou um punhado de homens se arvoram no direito de pegar em armas para atacar aglomerações públicas, sejam elas boates gays ou bares da moda, violando normas mínimas de convívio social pacífico em nome de verdades que reputam absolutas, incontestáveis e, por isso mesmo, tornam-se o impulso de atitudes tiranas e agressivas. Qual o caminho a ser percorrido para debelar e, por fim, evitar no futuro outros atentados do gênero?

Uma resposta única e definitiva jamais poderia ser dada, por quem quer que seja, autoridade ou não no assunto. Ações preventivas das forças armadas e da polícia estão se revelando inócuas ou até mesmo inúteis, tanto é que os atentados estão se repetindo e se multiplicando. Cortar os recursos que financiam tais atentados (tarefa nada fácil), como já tive oportunidade de recomendar em outro artigo, há alguns meses, poderia ser o caminho, mas reconheço que isoladamente isto teria um efeito apenas atenuante, mas não resolutivo. O que fazer, então?

Antes de tudo, é preciso evitar os “caminhos curtos”, como as medidas de força ou ações preventivas não acompanhadas de atitudes mais eficazes em longo prazo como, por exemplo, a urgente inclusão nos programas escolares do mundo inteiro de disciplinas voltadas para o ensino da tolerância e do respeito por culturas, religiões e opções sexuais diferentes do padrão ocidental ou heterossexual. Este seria o caminho mais “longo”, mas, a meu ver, o único que futuramente poderia apresentar resultados consistentes. Ações diplomáticas ou medidas desesperadas e irracionais como as propostas por Trump levam, respectivamente, ao adiamento da solução do problema ou a perigosas “leis excepcionais” que ferem princípios básicos democráticos pelos quais ninguém pode ser considerado culpado de antemão por ser árabe e por estar na lista de suspeitos do FBI (como no caso do recente atentado em Orlando).  

Na Divina Commedia de Dante Alighieri, o personagem protagonista que se encontra na “selva escura” (alegoria da condição de pecador sujeito à morte definitiva, isto é, à morte da alma, na visão cristã), logo aprende, no canto introdutório, que não se pode escolher o caminho curto e rápido da salvação, isto é, o da colina iluminada pelo sol, representando a luz de Deus, mas é preciso enfrentar os pecados humanos numa viagem pelas profundezas infernais, num processo de autoconhecimento e de conhecimento profundo das misérias (e das grandezas) do ser humano. Este processo complexo de conhecimento deveria ser ensinado nas escolas, e não o conteúdo burocrático e distante da realidade que geralmente é ministrado às crianças e adolescentes. Trata-se de um caminho longo, como o da personagem-viajante de Dante, mas o único realmente capaz de obter resultados, tanto no combate contra o terrorismo como contra qualquer forma de manifestação violenta e desumana.

Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.
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