21 de junho de 2016

O triste espetáculo dos moradores de rua em São Paulo

,
O triste espetáculo dos moradores de rua em São Paulo


Sergio Mauro

Sergio MauroA polêmica sobre os moradores de rua de São Paulo e a atitude, no mínimo inadequada, do atual prefeito de São Paulo, parece não ter fim. Os números impressionam: seriam, oficialmente, quase 16.000 os homeless paulistanos, mas é muito provável que essa legião seja muito maior, devido à dificuldade encontrada no levantamento dos muitos “não identificáveis” e “invisíveis” para quem corre apressado pelas ruas da capital. Pessoas que não possuem residência fixa e se espalham pelas praças e calçadas das grandes cidades não é, certamente, uma característica apenas paulistana ou brasileira, pois eles podem ser vistos em capitais europeias ou norte-americanas também. Não é culpa apenas da atual administração municipal, pois o problema se agravou a partir do momento que São Paulo escolheu o caminho do desenvolvimento a todo custo, sem planejamento e sem o estabelecimento de limites para a população máxima ou de quotas para a entrada de pessoas em busca de trabalho no (falso) eldorado da terra da garoa. O que deve ser discutido agora, em que a situação parece ingovernável, é como resolver ou, pelo menos, atenuar os problemas.

Em primeiro lugar, seria preciso investigar quais são os motivos que levam essa quantidade ingente de pessoas a escolher a rua como morada. Não é apenas a miséria provocada pelos problemas sociais e pela péssima distribuição de renda brasileira, como inicialmente poderíamos supor. Trata-se principalmente de um problema, não apenas brasileiro, que diz respeito à desestruturação familiar, agravada nos últimos trinta ou quarenta anos por vários fatores como a facilitação do divórcio e a maior independência das mulheres com a conquista do mercado de trabalho, antes preferencialmente masculino. Infelizmente, o que muitas vezes parece conquista social ou comportamental revela-se, com o passar dos anos, uma faca de dois gumes. Evidentemente, foi uma grande conquista a independência da mulher nos anos 60 e 70, embora ainda hoje ela se restrinja, sobretudo, aos ambientes urbanos das sociedades mais industrializadas. No entanto, o relacionamento homem-mulher e, sobretudo, marido-esposa, teve de passar por um processo de reconsideração e de adaptação, por vezes traumática, a uma realidade não experimentada pelas gerações anteriores. Os papéis mudaram, exigindo novos desempenhos no teatro social, e Isso leva a um número cada vez maior de separações e, consequentemente, de famílias desestruturadas, tendo como consequência o aumento do alcoolismo e do uso de drogas e, enfim, do recurso à rua como única esperança para quem já não possui um lar ou não sabe mais que papel lhe cabe nesse lar.

Lembro-me de Ironweed, um belíssimo filme de Hector Babenco dos anos 80, com Jack Nicholson no papel principal, interpretando um homeless nova-iorquino que busca as ruas depois de várias tragédias familiares e do alcoolismo consequente. A interpretação eficaz de Nicholson e a direção segura de Babenco transmitem ao espectador a dose necessária de comoção para que se considere o drama humano vivenciado por um homeless que, de repente, se vê destituído de um norte e procura o suicídio lento e certeiro das sarjetas, das “casas” de papelão ou dos refúgios sob viadutos e pontes.

Não se tratando apenas de uma questão de miséria econômica, portanto, a distribuição de comida realizada pelas autoridades ou por membros da igreja, embora compreensível como medida de urgência, e que propiciou as deprimentes disputas por mantimentos entre os homeless paulistanos, constitui um paliativo que não apenas não enfrenta adequadamente o problema, como também pode indefinidamente adiar a sua solução. Assim como no filme de Babenco, que explicita a origem de um drama humano, caberia uma ação conjunta entre assistentes sociais, educadores e voluntários de todos os tipos para identificar, um por um, cada morador de rua, chegando à origem da sua escolha, voluntária ou não, da rua como habitação. Reconheço que se trata de tarefa hercúlea, mas, a meu ver, a única que poderia produzir resultados palpáveis e duradouros.     

Sergio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.
Comentários
0 Comentários
0 comentários to “O triste espetáculo dos moradores de rua em São Paulo”

Postar um comentário


Seu comentário é sempre bem vindo!

Comente, opine, se expresse! este espaço é seu!

Comentário Anônimo, sem nome e email , não será publicado.

Se quiser fazer contato por email, utilize o Formulário para contato

Espero que tenha gostado do Site e que volte sempre!

in-article

Consorcio na Valenautico

Técnico de Informática

Manutenção de celulares - Técnico de Informática

20 Mega de Internet

20 Mega de Internet na Infovale

Clique na imagem

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
 

O Vale do Ribeira Copyright © 2011 | Design by: [ Camilo Aparecido Almeida ] | Movido a: [ Blogger ]