8 de junho de 2016

Keiko Fujimori e a irrelevante política no Peru

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Keiko Fujimori e a irrelevante política no Peru


João Eduardo Hidalgo

João Eduardo HidalgoDesde o último domingo venho acompanhando a rocambolesca apuração dos votos do segundo turno para a presidência do Perú. 

No pleito concorrem dois candidatos de direita, que tem infelizmente muito em comum, Pedro Paulo Kuczynski de 77 anos e Keiko Fujimori de 41, filha do Ex-Presidente Alberto Fujimori, que governou e impôs uma ditadura sanguinária ao Peru de 1990 a 2000. Kuczynski é um economista que estudou na Inglaterra e obteve um MBA em Economia na Universidade de Princeton (EUA), é descendente de alemães. Keiko Fujimori é formada pela Universidade de Columbia, estudou em várias partes do mundo e é descendente de japoneses. Dois burgueses, que têm uma biografia pouco ligada ao país, e que fazem parte de uma classe dominante que vive sempre muito bem, alegando sempre serem empresários bem sucedidos, mas com inúmeras dúvidas sobre procedências de fortunas e de inesgotáveis fontes de renda. Kuczynski foi acusado em 1968 de haver favorecido a International Petroleum Company, numa operação que custou ao Perú 115 milhões de dólares de perdas (lembra algo). Kuczynski fugiu para os Estados Unidos para não ser preso e só voltou ao Peru em 1980, credenciais fantásticas.

Mas esperem Keiko Fujimori consegue superar a biografia mafiosa (não uso o termo gratuitamente) de Kuczynski. Sendo filha do presidente eleito Alberto Fujimori ela passou a exercer o papel de primeira dama do País em 1994, depois de seu pai decretar-se ditador em 1992 e colocar a esposa (mãe de Keiko) para fora do palácio a pontapés. Em 1994 ela subiu ao palanque para o que seria a ‘segunda eleição’ de seu papai-ditator. Em 1995 resolveu cuidar da educação e foi estudar na Universidade de Boston, ficando na ponte aérea até terminar seus estudos, pois estava sempre ao lado do pai nos eventos oficiais. Em novembro de 2000, depois de dez anos, acossado por denúncias de enriquecimento ilícito e principalmente desrespeito aos direitos humanos, Alberto Fujimori fugiu para o Japão e por lá ficou até 2005. Keiko, a filha prodígio, resolveu dar um tempo e ir estudar na Universidade de Columbia, onde conheceu o ítalo-americano, Mark Vito, com quem se casou em Lima, e que da noite para o dia transformou-se num empresário bem sucedido do ramo imobiliário. As denúncias de corrupção contra Keiko são tantas que não seria possível relacioná-las neste artigo sem aborrecer os leitores.

A população do Peru é formada por três grandes grupos, os descendentes dos grupos indígenas, majoritariamente dos Incas Quéchuas, 70 %; descendentes de europeus 15 % (Kuczynski) e 12 % de africanos e 3% outros (Keiko). Em pesquisa feita no Peru pelo Instituto Nacional de Estadística e Informática INEI a maioria da população classifica-se como mestiça (60%) e quéchua-Inca (23%), somando temos 83% descendente das populações ancestrais pré-colombiana. Em janeiro de 1997 estive fazendo uma pesquisa de campo com esta população, pois escrevia sobre o escritor e antropólogo José María Arguedas (1911-1969), um descendente de europeus que foi criado no ambiente quéchua e que tornou-se um escritor extremamente criativo, pois mesclava em suas narrativas termos quéchua com os do espanhol, numa construção muito parecida com a que fez Guimarães Rosa no Brasil. A ideia era fazer um documentário sobre o escritor, com a presença de colegas, ex-alunos e de seu editor peruano. O projeto não deu certo, mas realizei um registro fotográfico do percurso no país, com mais de oitocentas fotos, que se transformaram em uma exposição fotográfica na USP e num mestrado, financiado pela FAPESP. Arguedas é um escritor pouco conhecido, pois escolheu viver, ensinar e concentrar sua produção dentro deste grupo étnico (apesar disto está traduzido em mais de 20 línguas).

Presenciei a situação miserável em que viviam estes 83% que não tem nada em comum com Keiko, nem com Kuczynski. Em Lima eles moram na periferia, em favelas que se equilibram em cima dos morros, não tem água nem esgoto e o que é pior nem voz, nem direitos. Em Huancayo estão perdidos no meio da serra, esquecidos, abandonados com suas tradições, que não interessam aos governantes. Em Cusco podem pedir esmola aos turistas que passam por lá para visitar Machu Picchu, a frase que mais ouvi foi ‘Tayta, una limosna” (Senhor (em quéchua), uma esmola).

Em Lima os hotéis estão em Miraflores, bairro de classe alta, que fica ao lado de El Barranco, bairro boêmio (proibitivo para os quéchuas pelos preços). Em janeiro de 1997 Lima vivia a ocupação da Embaixada do Japão, onde vários personagens da política e da alta burguesia estavam sequestradas pelo Movimento Revolucionário Tupac Amaru, desde dezembro do ano anterior (seriam libertados em abril). A cidade não tinha um sistema de comunicação eficiente, os ônibus públicos eram poucos e ineficientes, os táxis inexistentes e os microônibus e os clandestinos abundavam. Ir de uma parte a outra de Lima era uma aventura, você encontrava um carro (o hotel chamava), que não tinha taxímetro e negociava com ele para onde queria ir e quanto custaria.

O Peru possui a Universidad Nacional Mayor de San Marcos que é a universidade mais antiga das Américas, fundada em 1548, onde Arguedas estudou e lecionou, mas que é ignorada pela burguesia que prefere estudar fora do país. Para entrar no campus me pediram o passaporte e não entendiam (os guardas) o que um brasileiro podia querer com um escritor como José María Arguedas. Arguedas teve como segunda mulher uma chilena que era afilhada de Gabriela Mistral (1889-1957) e era uma grande oportunista social, que acabou envolvida com o Sendero Luminoso (grupo guerrilheiro fundado nos anos 1960 por alunos e professores universitários, para lutar contra a dominação imperialista americana/europeia). José María Arguedas nunca acreditou nesta estratégia e não tinha envolvimento com o grupo até morrer em 1969. A sua viúva Sibyla Arredondo que herdou os direitos da maior parte de sua obra, acabou presa em 1990 e foi condenada a 25 anos de prisão pelo regime de Fujimori pré-instalado no poder. Suprema ironia, em 2009 Alberto Fujimori foi sentenciado a 25 anos de prisão por crimes contra os direitos humanos. Sobre Alberto Fujimori inclusive existe a possibilidade de que ele tenha nascido no Japão em 1933 ou 1934, ano que seus pais chegaram ao país e não em 1938 em Lima, como ele declara. Em 2003, para a felicidade geral Sibyla foi mandada para criar problema no seu país de origem, o Chile.

Em 1997 na Universidad de San Marcos e na Universidad Nacional Agraria La Molina, duas universidades onde José María Arguedas atuou e onde muito da sua obra está depositada, encontrei professores amedrontados, que respondiam com evasivas e que concordavam em me dar entrevistas ou informações fora do campus. Alberto Fujimori, engenheiro agrônomo foi Reitor de La Molina, de onde saiu para chefiar o país.

Dezenove anos depois de ter visitado o país fico triste e estarrecido ao assistir esta ‘opera bufa’ que é o segundo turno da eleição peruana. Escolher entre Kuczynski e Keiko é eleger entre o velho ladrão e a jovem pistoleira. Ganhe Kuczynski ou Keiko (parece que será Kuczynski) a condição miserável de mais de 80% da população seguirá a mesma, nenhum dos dois fará qualquer coisa pelo tesouro cultural e genético dos quéchuas, pois eles não se interessam minimamente por eles, o desejo dos dois é continuar com suas vidas burguesas e confortáveis e suas visitas constantes a civilização, que para eles não está em Cusco, Lima, Arequipa ou Machu Picchu, mas sim na Suiça, EUA e no Panamá (os dois têm envolvimento com o Panamá Papers).

Dedicado à memória de José Maria Arguedas, um grande peruano, com o qual eu e a América Latina continuamos em dívida.    

João Eduardo Hidalgo é Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo e pela Universidad Complutense de Madrid. Professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.
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