30 de junho de 2016

Educação de qualidade

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Educação de qualidade


Marcos Alegre

Eu tenho deixado um pouco de lado o tema educação. Nestes últimos tempos, lendo e ouvindo o que se diz sobre este rico, mas tão empobrecido tema que me deixa sem muito ânimo para tratar de qualquer assunto que vise a educação. Lembra-se o dileto leitor que até o nosso ex-reitor professor Herman disse na mídia: “que tinha vergonha da educação em S. Paulo.” Reportagem do ano passado na Folha de S. Paulo: “Um trabalhador americano produz como 4 brasileiros.”  O texto explica as possíveis causas; baixo nível educacional, falta de qualificação de mão de obra e pouco investimento em tecnologia e inovação explicam a diferença. Brasileiro estuda em média sete anos já o americano estuda em média 12 a 14 anos. Em certo trecho a reportagem afirma que entre as melhores escolas no ensino médio apenas 8% são públicas. E a nossa presidente, ora afastada, colocou como seu slogan: “Brasil Pátria Educadora”. O processo político brasileiro chega a ser engraçado ou desgraçado, porque a presidente logo cortou metade da verba destinada à educação. E assim vamos indo na contramão dos países mais adiantados do mundo e dentro da nossa lógica: Um passinho para a frente e dois passos grandes para traz.

Considerando esses fatos decidi continuar o tema a partir de um livro que este autor produziu e foi publicado pela UNESP em 2002 com o titulo Estrutura da População Brasileira. Vale verificar que entre o que vimos agora e o que consta no livro há um espaço tempo de quase vinte anos. É como se fosse pequeno trecho da história da educação. Vou pinçar apenas alguns tópicos do tema Educação e que inicia-se assim: Números divulgados pela Situação Mundial da Infância, órgão da UNESCO, comentados por Mariana Scalzo, em reportagem publicada no jornal "Folha de S. Paulo" em 1995 indicam que, a educação brasileira continua no 4° mundo. Salienta a autora baseada nos dados divulgados que a educação ainda é um grande problema mundial porque muitos países  o Brasil entre eles  não resolveram questões básicas como o analfabetismo. A África, no seu conjunto, concentra os mais baixos índices de alfabetização. Já na Europa, quase toda população é alfabetizada. Conclui que, pelos dados, o Brasil estaria muito mais próximo da África que da Europa e que falta maior apoio do governo e recursos efetivos para a educação. Em contrapartida, apresenta alguns dados que demonstram as desigualdades regionais: Em S. Paulo, na época, 4% dos estudantes de 13 anos já usavam computador para fazer suas tarefas de casa; 36% das escolas tinham laboratórios.

O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) do Ministério da Educação apresentou, há pouco, resultados do desempenho das escolas de ensino básico admitindo que a situação do ensino, no país estava longe de ser satisfatória, chegando a julgar "trágica a situação do 2° grau. Essa avaliação vem demonstrar a grave deterioração da qualidade do ensino em todo o país atingindo também escolas privadas, tidas como melhores. Alguns especialistas reclamam que, para o Brasil, há muito tempo a educação teria deixado de ser prioridade. O dileto leitor deve levar em conta que estou escrevendo a situação da educação no Brasil por volta do ano 2000.

Apesar de tudo, em certos setores, a situação no Brasil melhorou bastante: o analfabetismo por exemplo, caiu de 20,2% para 16% em cinco anos. O número de matrículas em todos os graus teve grande incremento. Em termos quantitativos o país vem vencendo a batalha. No ano de 2000 mais de 96% das crianças estavam frequentando aulas. Mas a maioria das escolas, sobretudo, nas áreas mais carentes, continua ruim. O nível dos docentes ainda é baixo. A formação do professor melhorou pouco lembrando que a maioria, ou não tem formação adequada ou, quando tem, pelo menos legalmente, deixa a desejar quanto à qualidade, pois muitos professores, são egressos de faculdades de baixo padrão.

Lembrar que o governo federal tem estimulado, nas últimas décadas, a criação de faculdades particulares. Muitas foram criadas e instaladas de imediato as licenciaturas visando o mercado certo e seguro que é o ensino básico em expansão no país. A maioria dessas faculdades funciona precariamente, seja por falta de pessoal qualificado, seja pelo próprio descaso das mantenedoras somente preocupadas com o lucro. A educação transformouse em negócio altamente lucrativo e fez a fortuna dos proprietários, pretensos educadores. Este foi, também, um dos grandes equívocos do governo central... Não propriamente a criação da escola privada. Ela é necessária já que o Estado não teria condições de arcar sozinho com a manutenção da universidade e formar elementos para o mercado emergente. Deve-se levar em conta também a necessidade da existência de filosofias diferentes de enfoque do ensino e de projeto pedagógico não apenas o estatal. Milhares de jovens foram e continuam a ser enganados com grande prejuízo para a sociedade. Apesar de tudo, há de pensar no futuro. A formação do professor, seu aperfeiçoamento, inclusive levando-se em conta as perspectivas tecnológicas, precisa voltar a ser preocupação séria da sociedade. O salário do professor deve ser compatível com a importância da profissão. O magistério tem de ser encarado como vocação e não pode mais ser considerado refúgio e última alternativa para aqueles que não conseguem outra solução. Números recentes indicam que o Brasil gasta cerca de 5% Produto Interno Bruto (PIB) com a educação enquanto países como os Estados Unidos aplicam 13,8%, o México 13,7%, Portugal, 11,2%. Não é por acaso que tais países ostentem também, as maiores taxas de alfabetização e melhor qualidade de ensino. Se Deus assim o permitir volto ao tema no próximo artigo.

Mas não posso deixar de dizer que quem vive mais só perde os amigos. E desta vez são dois: O Prof. Dr. José Arana Varela e o grande mestre Prof. Dr. Willan Saad Hossne.

Marcos Alegre, professor emérito da Faculdade de Ciências e Tecnologia - FCT/UNESP e ex-diretor dessa mesma instituição. Contato: maralegre@ig.com.br
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