17 de maio de 2016

O gênio inquieto de Leonardo da Vinci

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O gênio inquieto de Leonardo da Vinci


Sérgio Mauro

Em maio de 1519, na França, faleceu um dos maiores gênios que a humanidade (pelo menos o mundo ocidental) conheceu: Leonardo da Vinci, que assim se chamava por ter nascido em Vinci, perto de Florença. Os filmes hollywoodianos, boa parte da mídia e até mesmo as histórias em quadrinhos sempre associaram Leonardo ao famoso provérbio popular: de gênio e de louco todo mundo tem um pouco. Pintor, escultor, projetista de máquinas que a tecnologia existente na sua época jamais poderia ter posto em prática, são tantos os prodígios de talento e de inteligência que a ele se atribuem, assim como tantas são as lendas a ele associadas. Até Freud discorreu sobre as suas opções sexuais. Mas como realmente se manifestava na prática a sua genialidade?

Inicialmente, não custa lembrar que Paolo Rossi (o insigne filósofo da Universidade de Florença, falecido há poucos anos e que não deve ser confundido com o seu homônimo perfeito, jogador de futebol e “carrasco” que determinou a eliminação da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982), definiu Leonardo como um “maravilhoso amador”, isto é, como um homem extremamente talentoso, criativo e, sobretudo, inquieto, incapaz de enquadrar e refrear a sua inata genialidade em esquemas metódicos e em metodologias supostamente científicas. A sua intuição excepcional literalmente explodia, e parecia impossível contê-la, orientá-la para uma única e determinada direção.

Poucos lembram, porém, que Leonardo da Vinci foi também escritor. É inegável que o seu incrível talento se concretizava principalmente na pintura e nos inúmeros e incrivelmente precisos e detalhados desenhos, que retratam tanto os mais variados “tipos” de cabeça humanas, quanto a anatomia dos corpos que, dizem, ele mesmo dissecava, tamanha era a sua obsessiva curiosidade por tudo o que era cognoscível. No entanto, quem se dispuser a ler os seus pensamentos, fábulas, profecias e cartas que foram reunidos em um volume que, na versão brasileira, ganhou o título de “Obras literárias, filosóficas e morais” (tradução de Roseli Sartori, São Paulo: Hucitec, 1997), certamente vai se deparar com instigantes exercícios literários que elencam animais, plantas e outros elementos da natureza, associando-os, ainda segundo o uso medieval, a características humanas. Com relação às fábulas, embora soem até mesmo ingênuas atualmente, demonstram a curiosidade incessante do autor que, em poucas linhas, consegue imaginar, por exemplo, que fim levou a aranha que entrou numa fechadura ou a pulga na pele de um cabrito!

Uma das seções do livro é constituída pelas “facécias”. Trata-se de um vasto repertório de anedotas, algumas até mesmo com palavrões e referências explícitas ao sexo, com as quais Leonardo tentava entreter os nobres que o protegiam, sobretudo os que pertenciam à poderosa família Sforza, de Milão. Demonstram claramente o finíssimo senso de humor de um grande artista, desmentindo o caráter sisudo que muitas vezes banalmente se atribui aos grandes sábios.

A seção chamada de “Pensamentos” na versão brasileira sintetiza a inquietação de Leonardo mencionada no início deste artigo. Em uma dessas reflexões, sem medo algum, ele se declara um “homem sem letras”, com pouco ou nenhum interesse pelo que é especulativo. O desenho e a pintura lhe pareciam muito superiores à arte da escrita, por possuírem objetividade e precisão no registro dos fenômenos naturais, evitando o “relato confuso” e os floreios do escritor, encaixando-se, portanto, perfeitamente no seu revolucionário empirismo. Enfim, ele não apreciava metodologias ou qualquer forma de respeito a regras restritivas que poderiam impedir o fluxo livre da sua imensa criatividade.

Leonardo, portanto, se estivesse entre nós e se tivesse de se submeter aos exames de ingresso para ocupar um cargo de professor universitário ou de pesquisador, seria certamente reprovado. Por quê? Por não possuir metodologia científica e por não respeitar minimamente as regras, nem mesmo as regras gramaticais! Ele seria reprovado, enfim, por ser “criativo demais” para a nossa combalida época.   

Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.
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