8 de abril de 2016

Palmyra - Artigo

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Palmyra

João Eduardo Hidalgo

Na última semana fomos informados que as forças do Exército Sírio retomaram a histórica cidade de Palmyra, que tinha sido dominada e seus templos e museu de sítio atacados pelo Grupo Terrorista Estado Islâmico. A imagem que se propagou pelo mundo foi a explosão do Templo de Baal, Bel ou Hadad, uma divindade semita dos Arameus, antigos ocupantes da cidade que se chamava então Tadmor, na língua aramaica (língua semita provavelmente falada por Jesus de Nazareth). O templo que fora reestruturado no século III da era cristã, voou pelos ares por ter sido feito pelos romanos e por retratar uma divindade de um infiel e inimigo, ou seja, os próprios sírios (?) que descendem na sua maioria deste grupo étnico (Arameus). Mas para mim a imagem (mesmo que seja só mental) que fica foi a decapitação do arqueólogo conservador de Palmyra Khaled Al-Assad de 82 anos, que durante 50 anos. Khaled, que foi torturado para revelar onde estariam algumas estátuas e objetos retirados do Museu de Sitio de Palmyra, teve sua cabeça cortada e seu corpo pendurado em uma coluna romana da cidade.

Em janeiro de 2012 estive em Damasco aonde cheguei através de uma ponte aérea de Istambul, um trajeto de duas horas. Desembarquei no Aeroporto Internacional de Damasco, que é minúsculo e fica longe da cidade. Lembro de chegar diretamente andando do avião a um balcão, onde um funcionário que não falava nenhuma língua além do árabe pegou meu passaporte e o girava em vários sentidos sem conseguir ler absolutamente nada. A minha surpresa foi que ele não conseguia sequer ler o visto do Consulado Sírio, tirado uma semana antes na avenida paulista em São Paulo; que estava escrito em português, francês e árabe. Ele começou a digitar algo no seu monitor, que movia o cursor da direita para a esquerda e balbuciava: Brrrrasil? Fui salvo por uma passageira africana que falou comigo em francês e com ele em árabe e depois de algum tempo olhando minhas malas ali mesmo, entenderam que eu era professor e que aquelas máquinas fotográficas e computador eram materiais de um viajante e não de um jornalista (quanta ingenuidade). O aeroporto é todo térreo e na frente tem belos painéis com motivos geométricos árabes (não textos) e já se sai na calçada onde táxis velhos, dos quais não se adivinha a cor, já estavam esperando pelos pouquíssimos passageiros.  A primeira impressão que tenho de Damasco é a de uma cidade na escuridão e que está em construção, a maioria dos prédios do centro não tem tinta na parede, ficaram somente no reboque e as construções aparentemente ilegais (puxadinhos) abundam. Em contraste as avenidas são amplas, passei por muitos viadutos e alças rodoviárias, inclusive já dentro da cidade. O hotel, numa viela que dá na imensa avenida Shoukry Al Qouwatly, era o que aparecia na internet, com um pátio Na mesma noite fui caminhar perto do hotel e encontrei a avenida 29 de maio e um grande cinema, Al-Dounia Cinema, com cartazes em árabe e nenhuma possibilidade de leitura para um ocidental. Na parede do cinema acima dos cartazes dos filmes vi duas fotografias, uma de Bashar Al-Assad de terno e outra de um militar com óculos escuros, seu irmão Maher Al-Assad, Chefe da Guarda Republicana e General de carreira. A duas quadras do cinema deparei-me com uma praça com uma linda fonte iluminada e um edifício de mármore branco com colunas retas, lembrando uma construção Art-Nouveau, depois soube que é o Banco Central Sírio, com uma imensa foto de Bashar, talvez uns doze metros, com o mesmo terno do cinema, e que fica a noite toda iluminada. A rua não estava iluminada e vários prédios também não, descobri que os que estavam, como o meu hotel, era porque tinham gerador próprio, pois a luz na capital era intermitente, isto em janeiro de 2012. Visitei algumas partes de Damasco como a Cidadela e a Mesquita Umayyad e estava pensando em ir até Palmyra, mas fui desaconselhado pelos poucos informantes que consegui entender. Fui alertado para não ir para o norte do país, pois depois da Primavera Árabe, no ano anterior, os movimentos contrários a Bashar Al-Assad, que são a Al-Qaeda, a Frente Nusra e os Muhsin estavam atuantes na região, principalmente em Aleppo. Não se falava em Estado Islâmico na época já que ele supostamente se revelou somente (a partir da Al-Qaeda) em 2014.

O apoio de Bashar Al-Assad vem (vergonhosamente) do Hezbollah e do Hamas, lembremos que o Hezbollah libanês tem participação no parlamento do mesmo país e o Hamas na organização política da Faixa de Gaza. A União Soviética é o grande pilar de apoio de Bashar. Conversando com um professor da Universidade de Damasco descobri que Bashar não era o herdeiro preferido de Hafez Al-Assad (1930-2000), o filho que estava sendo preparado para assumir o país era Bassel Al-Assad (1962-1994), um bon-vivant que numa manha em 1994 tinha tanta pressa em chegar ao aeroporto de Damasco, e seguir para a esbórnia européia, que se estraçalhou numa rotatória da escura estrada e morreu, para tristeza do pai e indiferença do povo sírio. A família e a descendência é um fator sempre muito nomeado neste ambiente que se auto-considera real, mas basta investigar um pouco e vemos que é um discurso vazio de grupos que querem manter-se no poder. Bashar Al-Assad não tem nenhuma ligação emocional com o povo sírio, ele estava estudando na Inglaterra e foi o que sobrou para ocupar o posto de dono do país, colocado ali pelo seu pai que aniquilou metodicamente todos os opositores.

Desejo que Palmyra volte a exibir para o mundo os seus templos e que seu museu seja recuperado, da melhor maneira possível, mas a insegurança e a falta de organização mínima que presenciei em 2012, no aeroporto e nos postos governamentais de fronteira com o Líbano, para onde fui depois de desistir da visita a Tadmor/Palmyra, me fazem temer pelo destino deste poderoso local e de seus protetores. Um país com mais de seis mil anos de história merecia mais ajuda internacional, para remover do poder um fantoche russo que só tem feito mal para esta grande memória ancestral e para o povo que a criou.

João Eduardo Hidalgo, Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo e pela Universidad Complutense de Madrid, é professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp de Bauru.


Enviado por Fabiana Manfrim
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