25 de abril de 2016

Outro lado da literatura

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José Roberto Fernandes Castilho
  José Roberto Fernandes Castilho
Muita gente ainda se lembra do Paulo Francis (1930-1997), jornalista ácido que balançou o coqueiro da imprensa brasileira a partir dos anos 1950/1960. E que, no fim da vida, criou um personagem na GloboNews com fala arrastada. Mas poucos saberão que o Francis teve um antecessor à altura: Agrippino Grieco (1888-1973), que foi um temido crítico brasileiro, hoje completamente esquecido. Penso que Grieco é a verdadeira fonte do Francis: ambos eram iconoclastas (Grieco fazia restrições a ninguém menos que Machado de Assis), adoravam uma frase de efeito e entravam fácil numa briga, com ótimos e elevados argumentos. A última de Francis, como se sabe, que o levou à morte, foi com a Petrobras.

Mofando nos sebos, os livros de Grieco são uma delícia, assim como eram os seus artigos diários na imprensa carioca entre 1930 e 1950. Mais do que isso: são um show de erudição fazendo com que o leitor não abandone nunca a leitura. Isto é a marca do bom jornalismo. Jornalismo é texto porém, hoje em dias, raros são os profissionais que escrevem com estilo, como fizeram ambos. Vou aqui reproduzir alguns trechos de livro precioso de Grieco chamado “Evolução da poesia brasileira”, de 1944, livro que desafia a opinião dos doutos.

1. Sobre Bento Teixeira, um dos nossos primeiros poetas, diz que seus versos são mais duros que lascas de chifre (!). Em seguida examina Gregório de Matos, de quem fala: “Examinemos a moral desse moralista. Em geral, os que pretendem corrigir os costumes do povo são sujeitos de péssimos costumes. Fazem-nos eles pensar nesses guarda-cancelas das estradas de ferro, cidadãos quase sempre capengas e manetas, mutilados de toda a espécie, que ali estão no propósito de zelar pela integridade física dos demais. Frequente encontrar ébrios impenitentes, verdadeiras colunas de botequim, que se metem a conselheiros de dignidade. De um deles, tipo extremamente vaidoso, escreveram certa vez: ‘É um Narciso a mirar-se em água... ardente’”;

2. Sobre Tomás Antonio Gonzaga, “poeta-juiz que ocupava as suas horas de ócio bordando vestidos e dando-se a outros misteres femininos que o tornam o autêntico precursor dos nossos almofadinhas”, diz Grieco: “Mulherengo nos hábitos caseiros, Gonzaga o foi igualmente nos domínios da poesia, faltando-se virilidade, entusiasmos físicos para compreender o ambiente bárbaro em que se desenvolvera a formosa aventura dos bandeirantes”;

3. Sobre os românticos: Castro Alves não foi um homem: foi uma convulsão da natureza. Álvares de Azevedo partiu-se como um vaso de terracota em que quisessem plantar um baobá. E o baiano Junqueira Freire, o mais triste de nossos poetas: “Em geral, os poetas tristes do Brasil são cavalheiros de coração poupado e espírito lúcido, autores de versos em que há uma frieza ou frialdade capaz de produzir muitos artritismos. Alguns choram e vão subindo, prosperando na vida. Doentes de fartura, lamentam-se de carteira repleta. Vates-capitalistas, vates-tabeliães, vates-oficiais de secretaria, lembram esses coveiros práticos que revendem as coroas do campo santo. Acabam de por dinheiro na caixa e escrevem: Como sou infeliz ! Como sou infeliz. Vê-se que é choro com aplicações industriais, choro de árvore resinosa. Falam eles em ossuários e em câmaras ardentes, mas habitando numa confortável ‘garçonnière’ que rescende a cravos e a tabaco turco”. Porém, depois dessa introdução demolidora, ele reconhece que Junqueira Freire sofreu de verdade.

4. Algumas observações rápidas sobre os modernistas. Manuel Bandeira, alma cheia de contrastes, enigmática para todos e para o próprio poeta, ora faz versos como quem chora, ora ri com riso de caveira sarcástica. Cecília Meireles é pouco original, “cópia da cópia”; a chuva chove constantemente em seus versos. Augusto Frederico Schmidt compôs este verso eminentemente limpeza pública – “Quis debalde varrer-te da memória”. O polemista dedica a Mário de Andrade só meia página do livro enquanto longas páginas são dedicadas a ilustres desconhecidos.

Concordando-se ou não com Grieco, cumpre verificar que são opiniões discutíveis e tiradas cortantes, que tornam seu livro muito mais interessante que os manuais acadêmicos de literatura, que se limitam a reproduzir o cânone aceito – sem quaisquer novidades. A imprensa brasileira, burocrática e sensaborona, se ressente de pessoas com ideias originais como ele e como o Francis: hoje, em regra, os jornalistas são uns chatos por vários motivos: medo dos danos morais, atuação a soldo de grandes grupos, vinculação ao poder político. E jornalista erudito é coisa que não existe mais por aqui. Ah, e sobre Machado de Assis, dizia que não escrevia romances mas neles juntava contos e, além disso, tinha muitas contradições, “como os grandes gênios e os grandes imbecis”.

Algumas frases de Grieco sobre os imbecis: “A burrice é contagiosa; o talento, não”; “Para os burros, o ‘etc’ é uma comodidade...”; “Ele não tem ouvidos, tem orelhas e dava a impressão de tornar inteligente todos os que se avizinhavam dele”; “Passou a vida correndo atrás de uma ideia, mas não conseguiu alcançá-la”; “Ele é mais mentiroso que elogio de epitáfio”; “No dia em que ele tiver uma ideia, morrerá de apoplexia fulminante”.

José Roberto Fernandes Castilho é professor da Unesp de Presidente Prudente.
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