27 de abril de 2016

O pícaro Miguel de Cervantes

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O pícaro Miguel de Cervantes


João Eduardo Hidalgo

João Eduardo Hidalgo
Neste mês de abril celebramos a memória do criador do romance moderno – Miguel de Cervantes Saavedra, autor de El ingenioso hidalgo Don Quijote de La Mancha. Cervantes era filho de um cirurgião de Alcalá de Henares, de onde teve que fugir depois de envolver-se em uma briga onde feriu Antonio de Segura, mestre de obras, e foi condenado pelo rei Felipe II a ter a mão esquerda cortada e ser desterrado da Espanha por 10 anos (a carta real está preservada no Archivo General de Simancas, Valladolid). A família achou melhor que ele fosse para a Itália e ele acaba servindo na Batalha de Lepanto na Grécia, onde é ferido no peito e não mão esquerda, que ficara lesionada pelo resto da vida.


Voltando para a Espanha Cervantes é preso pelos turcos e fica cinco anos na masmorra em Argel, até seu resgate ser pago. De 1580 a 1640 Felipe II torna-se o rei de Espanha e Portugal durante a chamada União Ibérica, pois o rei português Dom Sebastião morreu (ou desapareceu) na batalha de Alcácer Quibir, na África, sem deixar herdeiros. Cervantes procura aproximar-se do rei tentando um lugar em sua corte, vai até Lisboa e por lá fica por dois anos, depois segue Felipe II até Valladolid; nada conseguindo muda-se para a região de La Mancha, casa-se e fica vivendo por ai. Cervantes não teve filhos e costumava viajar muito pelo sul da Espanha, a Andaluzia, ocasião na qual deve ter passado por Consuegra e visto seus famosos moinhos no alto das montanhas. Entre os muitos trabalhos que exercita nesta época está o de cobrador de impostos atrasados, cargo que lhe causa muitos problemas e sua prisão (novamente) em 1597, em Sevilha, pela quebra do banco onde ele havia depositado os impostos recebidos. O governo encontrou várias irregularidades nas prestações de contas de Cervantes e esta parece ter sido a causa da pena, que ele tentou encobrir colocando o dinheiro em um banco que ele sabia que estava mal das pernas. Durante este encarceramento Cervantes começou a escrever Don quijote de la Mancha, cuja primeira parte seria publicada em 1605 e a segunda em 1615, um ano antes de sua morte. Antes e depois do Quijote Cervantes já tinha publicado outros romances e tinha se destacado na dramaturgia, com comédias que mostravam as peripécias das ‘pessoas comuns’ para sobreviver. Miguel de Cervantes morreu em 1616, aos 68 anos em Madri, de complicações de diabete e seu corpo está enterrado no convento das Trinitarias Descalzas, em tumba desconhecida. Este dado não deve ser ignorado, durante a sua vida e algumas décadas depois Cervantes nunca teve a importância que passou a ter a partir do século XVIII e XIX, sendo considerado, a partir daí, o criador (ou um dos primeiros) do romance moderno.

Como definir este romance moderno? A resposta mais comumente dada por teóricos como Martín de Riquer ou Maria Augusta da Costa Vieira é a de que Cervantes serviu-se de um gênero que estava morrendo, -os romances de cavalaria - e fez uma paródia, uma metaficção, mostrando realisticamente as mazelas do cotidiano contemporâneo do Século de Ouro espanhol, com um humor tristonho.

O personagem Alonso Quijano vive num mundo de fantasia, lendo sem parar livros de cavalaria, acaba tendo problemas em separar a realidade da ficção; o sentimento mais moderno que um personagem pode ter, como exemplo lembremos qual é o problema de Neo (Keanu Reeves) no filme Matrix (1999), um devedor da obra de Miguel de Cervantes.

Um dado importante que não pode ser esquecido é o contexto em que o romance nasceu. A Espanha do século XVII era um império onde o sol nunca se punha, pois Felipe II era senhor de terras de Portugal, Espanha, Nápoles, Sicília, Inglaterra e Irlanda, além de todas as colônias nas Américas. A população vivia sob uma mão divina e ditatorial e devia a este regente obediência e muitos impostos, as classes sociais eram muito fechadas e a única opção de progresso era ingressar na máquina real, coisa que a maioria da população, incluído aqui Cervantes, nunca, ou quase nunca, conseguia. Fundamental na caracterização desta época são dois livros: Tirant lo Blanc, escrita em catalão pelo cavaleiro Joanot Martorell em 1490 e Lazarillo de Tormes, livro anônimo de 1554. Martorell mostra a saga do cavaleiro Tirant (o branco), atentar para a eugenia explícita do nome, o perfeito herói catalão deveria ser branco (não mouro e nem judeu), que foi feito cavaleiro na Inglaterra e lutou contra os árabes e semitas nas terras bizantinas. Tirant já mostra falta de sintonia com a realidade e com os novos tempos, a sua recepção na Catalunha foi muito boa, mas ele já continha os sinais da morte do gênero. Já Lazarillo de Tormes mostra as peripécias de um jovem gatuno e malandro que faz tudo para sobreviver, não morrer de fome e tentar ascender socialmente. O livro escrito cinquenta anos antes do Quijote possui um realismo atroz, critica mortalmente a igreja e os nobres falidos, mostrando de maneira exemplar os vícios e hipocrisias da sociedade de então. Miguel de Cervantes herdeiro desta tradição transformará está crítica escrachada em uma análise sutil e acurada da sociedade espanhola de seu tempo, convertendo seu personagem principal em um representante do sonhador e do idealista que já não tem mais lugar no chamado mundo moderno.

Miguel de Cervantes nos mostra com El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha que a melhor realidade que existe é a inventada, a ficcional. A mais permanente lembrança é aquela que nos vem pela criação humana, que tem a possibilidade de conter todas as mazelas, dúvidas e sofrimentos da humanidade. Dom Quixote é mais humano quanto mais desvairado é seu comportamento e sua percepção da realidade cotidiana. A imaginação é muito maior que o mundo real, nela estão contidas todas as histórias e todas as possibilidades de resolução que uma trama possa engendrar, pois ela as contém ontologicamente. Viva Dom Quixote senhor da imaginação desbordante de Miguel de Cervantes Saavedra!


João Eduardo Hidalgo, doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo e pela Universidad Complutense de Madrid, é professor da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação Unesp, Câmpus de Bauru.
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